Classes infames, Patrimonialismo, Economicismo

Cercar a sociabilidade brasileira, enquadrá-la de forma a ter um conhecimento básico sobre nossas formas de organização. É esse o foco do curso. Os primeiros três encontros (um para cada uma das três partes da turma) trataram de maneira diferenciada, a partir de perspectivas diferentes de um contexto que ainda hoje pesa sobre os dilemas brasileiros.

Uma das leituras é o último capítulo desse incrível livro escrito por Décio Freitas que é “A miserável Revoluçao das classes infames”. Venho dizendo que é um livro tão incrível que a leitura desse último capítulo, sem passar pelo livro todo, não fornece spoilers nem reduz o signficado da obra, que trata das revoltas acontecida no Pará no conteexto das insurreições brasileiras do final do Século XIX – entre elas a Confederação do Equador, a revolta dos Farrapos no Rio Grande do Sul, a Sabinada, na Bahia, e a Revolução Praiera, em Pernambuco.

cabanagem

O contexto, em geral, é omitido nas aulas de História que são dadas no segundo grau: ele informa as razões pelas quais tantos levantes aconteceram em tão pouco tempo. Do jeito que essas histórias são apresentadas, parecem ser obra de um acaso, quando há uma razão específica e que nos ensina muito sobre o Brasil contemporâneo:  o povo, a massa de gente pobre, em especial escravos e seus descendentes, índios e seus descendentes, viam no processo de independência em curso naquele momento uma grande oportunidade para mudar de vida. Esperava-se, em particular, que a independência fosse acompanhada da abolição.

O que as classes infames não esperavam é que a condução do processo de independência, por parte das elites do Sudeste, procurasse impor uma república com pode concentrado nas mãos das mesmas pessoas. Preservar a hegemonia implicava na manutenção o status quo – em especial, a manutenção da escravidão, da qual os donos do poder de então não podiam abrir mão.

As revoluções do período são uma resposta a esse processo, que acontecia e à vista dos mais incomodados: populações do Norte, Nordeste e Sul. A leitura permite ver que a radicação da independência vinha dessas regiões, mais especificamente de suas populações mais marginais; que o escravismo é a pedra de toque que torceu a independência, de modo a criar um novo Estado-soperano, mas não uma nação (pois esse é um agregado de pessoas iguais entre si). Também ensina que as utopias retroativas dos cabanos poderiam apontar, na verdade, utopias prospectivas- somente o curso da revolução poderia deixar isso acontecer.

O capítulo lembra ainda qual a razão de não ter havido uma guerra entre Brasil e Portugal – um modo de solução ou negociação ou obstrução de conflitos pelo alto e que vez em quando se repete no Brasil: grandes mudanças, alteração de paradigmas decididas desde cima até embaixo.

A Ralé – Introdução

Na semana também tivemos o  primeiro contato com a Introdução desse interessante livro que é “Ralé brasileira – quem é e como vive”, de Jessé de Souza. É uma porta de entrada para discutir muitas coisas, claro, mas em especial a meritocracia e o economicismo. O autor traça algumas das características de nossa cultura política. A leitura permite ainda observar, ou analisar, as violências simbólicas presentes no fazer de um certo jornalismo (infelizmente predominante) no Brasil

O terceiro e importante texto que vimo é o quarto capítulo da incrível dissertação de mestrado de Marina Barso Lacerda (que, assim como o livro de Jessé de Souza, está disponível para download aqui no Terra Brasilis). É uma leitura bem específica pelo viés adotado: estudar o patrimonialismo e seus correlativos paternalismo e personalismo a partir da ótica feminina.

Na turma que leu pela primeira vez, tivemos um dos debates mais interessantes até agora do curso.

 

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