Os artistas precisam do Grammy ou será o contrário?

Lara Felix, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Quando criada em 1958, a premiação contava com 23 categorias e atualmente são 83

O Grammy Awards é uma premiação criada pela The Recording Academy que conquistou prestígio e se tornou sonho de qualquer artista na indústria musical. Mas em 2020 surgiram acusações contra a academia feitas por Deborah Dugan, ex-presidente e diretora do Grammy, que deixou seu cargo sob acusação de má conduta. Deborah chegou a citar uma lista extensa de acusações, e de acordo com a revista Variety, Dugan mencionou que membros do conselho “usavam comitês secretos como oportunidade para promover artistas com quem eles tinham relacionamentos”. Mas essa questão do favoritismo de certos artistas por parte do comitê não é surpresa para quem acompanha o evento. Esse ano ficou ainda mais evidente que mesmo tendo um selo de “diversidade”, a postura do Grammy -com sua banca de jurados composta por homens brancos- ainda é baseada no racismo, xenofobia e machismo.

Quando criada em 1958, a premiação contava com 23 categorias e atualmente são 83, o fato foi publicado no Instagram do Nexo Jornal com gráficos em que mostram o perfil dos vencedores desde 1959. É óbvio que na questão de gênero o público masculino foi o que mais levou o prêmio para casa. Se tratando de nacionalidade, o Nexo Jornal organizou por continente e a América do Norte liderou tendo nos EUA 176 vencedores, e na Europa, mas especificamente no Reino Unido foram 45. Em outros países como Irlanda, Canadá e México o número foi abaixo de seis, deixando bem claro que em outros continentes como Oceania, América do Sul, América Central e África, o resultado foi abaixo de dois. Nesses 63 anos de existência apenas 10 artistas negros venceram na categoria principal denominada Álbum do Ano, entre eles estava Stevie Wonder e Michael Jackson.

Casos de racismo são recorrentes no Grammy, tanto que o evento já recebeu várias críticas por causa disso, mas ainda assim a Academia continua criando obstáculos para que produções de artistas negros sejam mais difíceis de receber o devido reconhecimento. Um exemplo disso foi o cantor Frank Ocean, que em 2017 negou se apresentar na premiação em forma de manifesto contra o racismo que já estava visível. A rapper Nicki Minaj relatou em resposta a um fã no Twitter o porquê de nunca ter conquistado o gramofone, que segundo a mesma foi por decisão do produtor do evento, Ken Ehrlich. Não se pode negar que o mínimo de reconhecimento que artistas negros recebem é na categoria R&B, infelizmente nas outras não podemos dizer o mesmo.

O mais recente exemplo de racismo por parte da academia foi na última edição quando o cantor canadense Abel, mais conhecido como The Weeknd, não foi indicado a nenhuma categoria mesmo tendo feito um ótimo trabalho artístico no seu último álbum After Hours, lançado em março de 2020. De acordo com a Variety, o álbum se encaixava em mais de uma categoria: a de Melhor Álbum Pop, R&B e Álbum do Ano. E isso pode ter sido um problema, já que é difícil a nomeação de artistas negros a alguma categoria pop. Mas de qualquer maneira isso não justifica, se o álbum é realmente bom teria que ser levado em conta tudo, como os de qualquer outro artista branco.

Outra questão importante na indústria são os charts, a popularidade de The Weeknd era mais um motivo para ele ter recebido alguma indicação. Com o lançamento do álbum, o artista atingiu uma marca única nas paradas da Billboard, liderando rankings como Billboard 200, Billboard Hot 100, Billboard Artist 100 e outros. De acordo com uma matéria publicada pela Rolling Stones em novembro de 2020, a faixa Blinding Lights estava há 39 semanas no Top 10 do ranking Billboard Hot 100, alcançou o 7º lugar na Billboard Hot 200 em agosto, e também estava seguindo para 25ª semana no 1º lugar no ranking R&B. Todos esses números foram mais do que suficientes para provar a popularidade tanto do artista como do álbum, e é com essas informações que ficou ainda mais evidente o que realmente acontece nos bastidores da The Recording Academy.

Com o racismo agora perceptível na indústria que cerca o Grammy, é hora de entrar em outro ponto que é tão importante quanto, a xenofobia aos não estadunidenses. Nas premiações existem categorias “Latinas” para separar artistas que não nasceram em território norte americano, o Grammy Latino existe, e está aí há 20 anos para confirmar que a indústria musical, e não apenas ela, impõe uma crença separatista. O que começou a ser mais visto nos últimos anos foi a presença de grupos/artistas sul-coreanos conquistando mais ainda o mundo da música. Um dos maiores exemplos deles foi PSY com o sucesso Gangnam Style lá em 2012, e atualmente temos o grupo BTS.

A situação com BTS foi a seguinte, em abril de 2019 o grupo lançou o álbum Map of the Soul: Persona que foi sucesso comercial com apenas sete faixas. O grupo também colocou três discos no topo das paradas em 11 meses, ultrapassando os Beatles. Lançaram no início de 2020 o Map of the Soul: 7 que fez  eles colecionarem mais títulos de 1º lugar, e ainda assim não foi suficiente para ter suas admissões aceitas na premiação. Até eles lançarem Dynamite, em agosto de 2020, uma música completamente em inglês que levou eles a receberem a nomeação com direito a performance. Mas a popularidade da música feita pelos artistas coreanos em uma língua que não é a deles de origem, 100 milhões de visualizações no YouTube em 24 horas e o 1º lugar por semanas nos charts não foi suficiente para a academia dar o prêmio a eles. E como se não bastasse, seguraram a apresentação deles até o final do evento por motivos de audiência, já que o grupo era um dos mais aguardados da noite.

Após esses episódios lamentáveis, fãs se revoltaram mais ainda nas redes sociais e qualquer pessoa com bom senso poderia entender o que houve. Várias matérias de veículos renomados como a Forbes levantou a questão de que BTS precisava do Grammy ou o Grammy que precisava deles? E ainda assim a academia fez o que fez. Com isso concluo de forma geral que os artistas precisam realmente do Grammy ou é o Grammy que precisa dos artistas?

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