Quem tem medo dx negrx na TV brasileira?

Caroline Cardilane – estudante de Jornalismo e estagiária em produção de TV.

Nei Lopes Já havia alertado para o problema

Representatividade: uma das palavras mais reproduzidas atualmente. Essa paroxítona circula desde rodas de debate acadêmicos a postagens em redes sociais. Grupos de “minoria” cada vez mais reivindicam seus espaços como atuantes político-sociais. Um desses espaços é a mídia, ainda formada em grade parte por profissionais brancos, cis e hetéros. Esse perfil é provindo de costumes de uma sociedade branca elitizada e heteronormativa que desde o início têm mais recursos de acesso a seus privilégios de atuação em áreas como a da comunicação. 

Contudo, quando falamos de protagonismo negro, os espaços desses grupos na mídia brasileira são um espelho da realidade do país: reduzido e, muitas vezes, utilizados por conveniências. Em entrevista à BBC NEWS, o pesquisador de culturas africanas, Nei Lopes, já havia comentado sobre o problema. Lopes disse que a presença do negro na mídia, mesmo sendo positiva em partes, ainda tem muito mais a ver com consumo do que com a representatividade de fato.  

No Brasil, atualmente, a representatividade é infelizmente mais discutida do que aplicada. Como por exemplo em redações de jornalismo e na teledramaturgia, ambos os núcleos atingem e moldam opiniões de milhares de pessoas. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística) 55,8% da população brasileira é negra. No entanto, esse número decresce para 23% entre os jornalistas, segundo pesquisa do Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). Entre eles, 18% são negros e 5% pardos. Essas porcentagens falam muito sobre as questões histórico-socioculturais do país, nas quais o negro continua a ser invisibilizado e sombreado pelo protagonismo branco. Além disso, a forma com que o jornalismo aborda o racismo ainda é um problema. 

Nos programas policiais, por exemplo, a situação inflama. Os crimes contra jovens negros de periferia viram um espetáculo, diminuindo a atenção do público para o verdadeiro problema: o racismo estrututal por si só e a violência contra corpos negros. Ou quando em uma roda de debate sobre o assunto, apenas profissionais brancos participam e ocupam um lugar de fala que não os pertence. Como no programa ‘Em Pauta’ da Globonews no ano passado, o episódio virou alvo de diversas críticas, e com razão. O problema não é só em relação às redações de jornalismo, mas a mídia como um todo.   

Por exemplo, autores de novelas que escalam atores negros para seus elencos, pouco pensam na maneira como o personagem vai ser representado. O negro faz o papel do motorista, do traficante, da tia “espalhafatosa” e, se interpreta um personagem central, ele provavelmente vai carregar algum esteriótipo consigo – diga-se de passagem, atribuído por brancos durante o  processo histórico. 

Um exemplo dessa falta de protagonismo foi a novela ‘Segundo Sol’ (2018) da Rede Globo, que virou assunto até no jornal inglês The Guardian, quando foi criticado o fato de que em um drama ambientado na Bahia, um estado em que 80% da populaçãode identifica como negro, segundo dados do IBGE, seja interpretado majoritariamente por brancos. A autora e feminista negra Lélia Gonzales já ressaltava: “quem possui o privilégio social automaticamente possui o privilégio epistêmico e, por consequência, inviabiliza outras experiências do conhecimento e deslegitimiza vozes.”

E é aproveitando o ‘hype’ das discussões de representatividade e protagonismo negro que as  empresas e marcas começaram um processo de “inclusão”, em grande parte apenas de forma externa. Nas propagandas e programas da mídia, o negro passou a atuar como o falso protagonista da história, ou seja: “vamos contratar mais pessoas pretas, só não vale contar que a chefia e os altos cargos do contratante são completamente formados por brancos”. Volta-se então ao ponto levantado por Nei Lopes: tem muito mais a ver com consumo do que com a representatividade de fato. Por trás, tudo não passa de uma manipulação produzida para o público na qual a mídia só está disposta a mudar a imagem externa, e o que chega até ele é amplamente planejado e moldado para “agradar” e se encaixar nos debates atuais. 

No entanto, a parte interna, a que realmente faria diferença por compreender fatores sociais hierárquicos, permanece estática e imutável. O papel de destaque continua sendo dos brancos, cisgêneros e héteros. Todavia, as discussões sobre racismo e representatividade parecem estar se ampliando. Hoje em dia, por meio das mídias de  autores, atores e influenciadores, a sociedade tem um acesso mais facilitado às discussões sobre os problemas sociais, representados por quem os vive e sente na pele. A transformação para um futuro mais inclusivo pode ser lenta, assim como todos os processos já construídos historicamente, mas não impossível. Para tal, a solução é sempre a educação: é a partir dela que os processos históricos, culturais e sociais já citados começam a ser questionados, formando opiniões e alavancando a luta por espaços e representatividade de grupos que já possuem voz, mas que poucos as escutam.

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