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O que explica a redução de homicídios no Brasil?

Taí uma boa reportagem publicada pelo El País Brasil. Para mim é um bom exemplo de como a análise dos números pode ir além dos números e render um material mais analítico. Você pode ler o conteúdo todo aqui.

O Brasil é a capital mundial de assassinatos. Nenhum país sequer chega perto. Por essa razão, foi extensamente noticiado quando o Ministro da Justiça anunciou que as taxas de homicídios caíram mais de 20% em 2019 em comparação com o mesmo período do ano passado. O que ele não mencionou, entretanto, é que as taxas de homicídio estão em declínio desde 2018, bem antes da eleição de Jair Bolsonaro, no final do ano. Embora Bolsonaro e seus apoiadores tenham tentado receber crédito por essas quedas, há outros fatores que pouco tem a ver com suas atitudes.

Primeiro: no que tange a homicídios, 2017 foi o annus horribilis do Brasil. Mais pessoas foram assassinadas naquele ano – quase 64.000 – do que em qualquer outro momento da história do país. A explosão de violência ocorreu em grande parte devido à ruptura de uma trégua entre as duas facções rivais que dominavam o tráfico de drogas no país – o PCC e o CV – e as consequentes disputas pelo controle. Além disso, a violência ainda coincidiu com um boom na produção de cocaína nos vizinhos Colômbia e Peru. O declínio parcial dos homicídios em 2018 e 2019 pode ser interpretado como uma espécie de “correção”.

Desigualdades regionais e naturalização da pobreza

Nas últimas semanas analisamos alguns quadros e gráficos que mostram as diferenças no nível de desenvolvimento entre as regiões brasileiras. O estudo desses gráficos serviu para começarmos a analisar as razões das disparidades regionais. Eu lembrei nas nossas conversas que os gráficos todos tem duas coisas em comum: mostram que o Sudeste é mais industrializado, mais rico, tem mais empresas e estradas rodoviárias, entre outras coisas e, além disso, eles (os gráficos) não explicam nada.

Com isso, se quer dizer que qualquer gráfico ou mapa é um elemento em uma narrativa: é preciso contar a história (as histórias) por trás dos números. Do contrário, cai-se no fetiche dos números a que Jessé de Souza se refere. Ou seja, é preciso entender e ir atrás das causas do que os gráficos e números mostram para poder interpretá-los melhor.

É aí que nos ajudam as ciências sociais – antropologia, sociologia, história, geografia.

Para compreender as razões da desigualdade entre as regiẽos brasileiras nós usamos o livro “A miseraǘel revolução das classes infames”, de Décio de Freitas. O livro trata da Cabanada, a revolução ocorrida no Pará entre 1835 e 1840.

Como outras insurreições populares que ocorreram no mesmo período, a Cabanada foi motivada pelo caminho que a formação da República brasileira estava tomando. Os cabanos (índios, negros, mestiços, todos pobres) estava vendo que o poder ia continuar concentrado nos estados do Sudeste e que o mesmo arranjo de forças iria permanecer: ou seja, a escravidão continuaria como principal forma de organização social e de produção de riquezas.

Os cabanos não queriam um futuro em que o Sudeste concentrava poder político e riqueza. O nosso presente atual.

A compreensão dessas razões históricas ajudam a compreender a realidade sobre a qual vocês vão produzir jornalismo e sobretudo a não naturalizar as desigualdades.

Mapas de desigualdade

Um importante instrumento para a construção dos projetos em andamento são os mapas de desigualdade e de violência que podem ser construídos a partir de indicadores sociais.

Os indicadores sociais são informações que sinalizam as condições de vida da população – nível educacional, rendimento, bens duráveis, entre outros.

Uma fonte importante para se buscar esses dados é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O IBGE é o mais instituto de pesquisas da América Latina e seu site possui um acervo muito rico – e quanto mais você usa-lo, mais conseguirá informações para substanciar suas reportagens. Esse link oferece uma série de mapas que se relacionam a desigualdades sócioeconômicas.

O mapa abaixo, por exemplo, dispõe de informações sobre a participação das mulheres na população economicamente ativa (PEA). Nele, vocês podem ver que o Estado da Bahia possui o maior número de famílias chefiados por mulheres de toda a Federação.

Screenshot_2019-04-04 Participacao_Feminina ai - brasil_participacao_feminina pdf

Como escolher qual mapa usar? Depende do que você esteja fazendo, do tema que está tratando e/ou do que você queira salientar na sua narrativa.

VIOLÊNCIA

O tema da violência, por exemplo, tem estudos específicos que merecem ser observados em alguns dos projetos em produção nesse 2019.1.

O Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas produziu um desses estudos. O estudo do IPEA é dividido nos temas: Homicídios, Juventude Perdida, Violência por Raça e Gênero, Mortes Violentas por Causa Indeterminada, Armas de Fogo, Crimes violentos Contra a Pessoa, Crimes Violentos Contra o Patrimônio, Acidentes de Transporte, Suicídios, Gastos e Políticas de Segurança Pública.

Abaixo, um dos mapas que se pode obter a partir desse trabalho, referente aos números de homens mortos no Atlas da violência do ano de 2018.

Screenshot_2019-04-04 Ipea - Atlas da Violencia - Mapa

esse aqui é o Mapa da Violência produzido pela Flacso e se refere a dados de 2016. O estudo focaliza a evolução dos homicídios por armas de fogo no Brasil no período de 1980 a 2014. Também é estudada a incidência de fatores como o sexo, a raça/cor e as idades das vítimas dessa mortalidade. São apontadas as características da evolução dos homicídios por armas de fogo nas 27 Unidades da Federação, nas 27 Capitais e nos municípios com elevados níveis de mortalidade causada por armas de fogo.

ESCOLHAS

Muitos outros mapas podem ser acessados e usados, a depender sempre do que você precisa no seu projeto de comunicação. Certifique-se de se basear numa boa fonte para isso – um instituto que faz o trabalho a vários anos, ou uma pesquisa desenvolvida em instituição reconhecida.

A questão urbana no Brasil

Boa parte dos problemas e contradições da sociabilidade brasileira que temos analisado explodem na cidade.

O economicismo, assim como os efeitos do Neoliberalismo triunfante; muitos dos efeitos do racismo e da intolerância ao “diferente”; os processos de exclusão social e também as evidências dos patrimonialismo ganham cores muito fortes nos centros urbanos.

Muitos urbanistas trabalham essas questões relacionadas à vida nas cidades. Uma dessas pessoas é Ermínia Maricato – que esteve na Unicap alguns das atrás quem viu viu quem não viu perdeu.

A urbanista foi uma das organizadoras do Ministério das Cidades e tem uma contribuição muito importante para entender como nossas cidades são planejadas. E em particular para entender como as cidades brasileiras são espelhos de um desenvolvimento desigual.

A leitura recomendada é o texto As ideias fora de lugar e o lugar fora das ideias, que está no livro A cidade do pensamento único.

Como introdução a esse assunto acho que vocês podiam ver o documentário A cidade no Brasil produzido pelo Sesc TV e inspirado no livro A Cidade no Brasil, de Antonio Risério. A série explora os aspectos históricos, culturais e estéticos do fenômeno urbano no país, investiga o surgimento das cidades e discute seu desenvolvimento até os dias atuais.