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Apagamento histórico e branqueamento. A gente vê por aqui

Por Mariana Mota, estudante de jornalismo

Sendo uma das principais difusoras de informação e entretenimento, seria esperado a responsabilidade e o cuidado em tratar de certos temas, o que, infelizmente, não acontece na Globo.
Jornalistas negros ou não-brancos da Globo

Líder de audiência no Brasil, a rede Globo atinge um público diário de cerca de 200 milhões de pessoas, grande parte atraído pelas famosas novelas exibidas em sua programação. Sendo uma das principais difusoras de informação e entretenimento, seria esperado a responsabilidade e o cuidado em tratar de certos temas, o que, infelizmente, não acontece.

Não é novidade que a TV brasileira falha terrivelmente em trazer diversidade às telas. Porém, quando nos deparamos com pessoas brancas em papéis que deveriam ser desempenhados por pessoas negras, indígenas ou amarelas, quando há um branqueamento e apagamento histórico, o problema fica ainda mais sério.

Durante a pandemia, a Globo reprisou o título “Novo Mundo”, exibido originalmente em 2017 como uma recontagem da história do reinado no Brasil que beirou o ridículo. E, como é de costume nas telinhas da emissora, o elenco principal foi composto em sua grande maioria, por atores brancos. A novela, além de abordar a família real portuguesa, tinha como um dos núcleos a tribo indígena Tucaré, na qual Piatã, interpretado pelo ator branco Rodrigo Simas, não só fazia parte, como era o principal personagem indígena.

É preocupante que o canal de TV aberta mais assistido do país tenha escolhido invisibilizar e promover um apagamento da história indígena, do nosso povo, a partir de uma abordagem irresponsável e tenha oferecido esse “entretenimento” para milhões de pessoas.

Elenco de Sol Nascente

Tivemos outro caso de branqueamento em 2016, na novela “Sol Nascente”, que trouxe a família Tanaka, de origem japonesa, em que seu patriarca, Kazuo Tanaka, foi interpretado pelo ator, mais uma vez branco, Luís Melo. Apesar do foco na família japonesa, convenientemente, a principal personagem do núcleo era Alice, filha adotiva e branca interpretada pela atriz Giovanna Antonelli.

Protagonizar uma mulher branca e dar o papel de um senhor japonês a um ator branco foram escolhas. Mesmo quando houve a oportunidade de protagonizar pessoas amarelas, mesmo quando houve a chance de quebrar estereótipos, de colocar em evidência a pauta antirracista a favor de descendentes asiáticos, que têm sua luta frequentemente camuflada, o protagonismo de pessoas brancas foi priorizado.

Essa preferência por atores e personagens brancos, na emissora, não acontece sem querer ou por falta de atores de cor, pelo contrário. O Brasil é um país marcado pela miscigenação racial e o que mais temos à disposição são artistas extremamente competentes que acabam sendo marginalizados por não fazerem parte do padrão ocidental que tanto vemos persistindo na mídia.

Sutilmente, a Globo promove o racismo através de suas produções com um discurso hipócrita “antirracista” que sai das bocas de pessoas brancas. A televisão é uma ferramenta poderosa de formação de opinião pública e invisibilizar pautas importantes em um momento em que o país está infestado de desinformação e intolerância é preocupante.

Torna-se extremamente difícil levar a sério uma emissora que ofereceu – e em horário nobre – uma novela passada na Bahia, como foi o caso de “Segundo Sol”, em que todos os personagens principais eram brancos, quando o estado possui a maioria da população autodeclarada negra. Mais uma vez, a Globo teve a chance de protagonizar pessoas negras e decidiu seguir o rumo do branqueamento.

Esse fenômeno é racismo explanado e não prejudica apenas quando falamos de representatividade, mas quando as pessoas responsáveis por essas produções discriminatórias preferem distorcer histórias e promover um apagamento a dar protagonismo a pessoas negras, indígenas e amarelas.

Envelopar essa discriminação racial em forma de entretenimento e informação para grande parte da população brasileira, que enfrenta todos os dias as adversidades do acesso precário à educação, é, no mínimo, imprudente.

Os artistas precisam do Grammy ou será o contrário?

Lara Felix, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Quando criada em 1958, a premiação contava com 23 categorias e atualmente são 83

O Grammy Awards é uma premiação criada pela The Recording Academy que conquistou prestígio e se tornou sonho de qualquer artista na indústria musical. Mas em 2020 surgiram acusações contra a academia feitas por Deborah Dugan, ex-presidente e diretora do Grammy, que deixou seu cargo sob acusação de má conduta. Deborah chegou a citar uma lista extensa de acusações, e de acordo com a revista Variety, Dugan mencionou que membros do conselho “usavam comitês secretos como oportunidade para promover artistas com quem eles tinham relacionamentos”. Mas essa questão do favoritismo de certos artistas por parte do comitê não é surpresa para quem acompanha o evento. Esse ano ficou ainda mais evidente que mesmo tendo um selo de “diversidade”, a postura do Grammy -com sua banca de jurados composta por homens brancos- ainda é baseada no racismo, xenofobia e machismo.

Quando criada em 1958, a premiação contava com 23 categorias e atualmente são 83, o fato foi publicado no Instagram do Nexo Jornal com gráficos em que mostram o perfil dos vencedores desde 1959. É óbvio que na questão de gênero o público masculino foi o que mais levou o prêmio para casa. Se tratando de nacionalidade, o Nexo Jornal organizou por continente e a América do Norte liderou tendo nos EUA 176 vencedores, e na Europa, mas especificamente no Reino Unido foram 45. Em outros países como Irlanda, Canadá e México o número foi abaixo de seis, deixando bem claro que em outros continentes como Oceania, América do Sul, América Central e África, o resultado foi abaixo de dois. Nesses 63 anos de existência apenas 10 artistas negros venceram na categoria principal denominada Álbum do Ano, entre eles estava Stevie Wonder e Michael Jackson.

Casos de racismo são recorrentes no Grammy, tanto que o evento já recebeu várias críticas por causa disso, mas ainda assim a Academia continua criando obstáculos para que produções de artistas negros sejam mais difíceis de receber o devido reconhecimento. Um exemplo disso foi o cantor Frank Ocean, que em 2017 negou se apresentar na premiação em forma de manifesto contra o racismo que já estava visível. A rapper Nicki Minaj relatou em resposta a um fã no Twitter o porquê de nunca ter conquistado o gramofone, que segundo a mesma foi por decisão do produtor do evento, Ken Ehrlich. Não se pode negar que o mínimo de reconhecimento que artistas negros recebem é na categoria R&B, infelizmente nas outras não podemos dizer o mesmo.

O mais recente exemplo de racismo por parte da academia foi na última edição quando o cantor canadense Abel, mais conhecido como The Weeknd, não foi indicado a nenhuma categoria mesmo tendo feito um ótimo trabalho artístico no seu último álbum After Hours, lançado em março de 2020. De acordo com a Variety, o álbum se encaixava em mais de uma categoria: a de Melhor Álbum Pop, R&B e Álbum do Ano. E isso pode ter sido um problema, já que é difícil a nomeação de artistas negros a alguma categoria pop. Mas de qualquer maneira isso não justifica, se o álbum é realmente bom teria que ser levado em conta tudo, como os de qualquer outro artista branco.

Outra questão importante na indústria são os charts, a popularidade de The Weeknd era mais um motivo para ele ter recebido alguma indicação. Com o lançamento do álbum, o artista atingiu uma marca única nas paradas da Billboard, liderando rankings como Billboard 200, Billboard Hot 100, Billboard Artist 100 e outros. De acordo com uma matéria publicada pela Rolling Stones em novembro de 2020, a faixa Blinding Lights estava há 39 semanas no Top 10 do ranking Billboard Hot 100, alcançou o 7º lugar na Billboard Hot 200 em agosto, e também estava seguindo para 25ª semana no 1º lugar no ranking R&B. Todos esses números foram mais do que suficientes para provar a popularidade tanto do artista como do álbum, e é com essas informações que ficou ainda mais evidente o que realmente acontece nos bastidores da The Recording Academy.

Com o racismo agora perceptível na indústria que cerca o Grammy, é hora de entrar em outro ponto que é tão importante quanto, a xenofobia aos não estadunidenses. Nas premiações existem categorias “Latinas” para separar artistas que não nasceram em território norte americano, o Grammy Latino existe, e está aí há 20 anos para confirmar que a indústria musical, e não apenas ela, impõe uma crença separatista. O que começou a ser mais visto nos últimos anos foi a presença de grupos/artistas sul-coreanos conquistando mais ainda o mundo da música. Um dos maiores exemplos deles foi PSY com o sucesso Gangnam Style lá em 2012, e atualmente temos o grupo BTS.

A situação com BTS foi a seguinte, em abril de 2019 o grupo lançou o álbum Map of the Soul: Persona que foi sucesso comercial com apenas sete faixas. O grupo também colocou três discos no topo das paradas em 11 meses, ultrapassando os Beatles. Lançaram no início de 2020 o Map of the Soul: 7 que fez  eles colecionarem mais títulos de 1º lugar, e ainda assim não foi suficiente para ter suas admissões aceitas na premiação. Até eles lançarem Dynamite, em agosto de 2020, uma música completamente em inglês que levou eles a receberem a nomeação com direito a performance. Mas a popularidade da música feita pelos artistas coreanos em uma língua que não é a deles de origem, 100 milhões de visualizações no YouTube em 24 horas e o 1º lugar por semanas nos charts não foi suficiente para a academia dar o prêmio a eles. E como se não bastasse, seguraram a apresentação deles até o final do evento por motivos de audiência, já que o grupo era um dos mais aguardados da noite.

Após esses episódios lamentáveis, fãs se revoltaram mais ainda nas redes sociais e qualquer pessoa com bom senso poderia entender o que houve. Várias matérias de veículos renomados como a Forbes levantou a questão de que BTS precisava do Grammy ou o Grammy que precisava deles? E ainda assim a academia fez o que fez. Com isso concluo de forma geral que os artistas precisam realmente do Grammy ou é o Grammy que precisa dos artistas?

A questão urbana

PARIS / DESIGN DAS CIDADES / Um recorte artístico do urbanismo pelo planeta.
Retirado de Instagram.com/sertrading

Se a sociedade brasileira é uma das mais desiguais do mundo, essa condição se espelha na maneira como nossas cidades se estruturam e se apresentam. As marcas da colonização e da colonialidade estão presentes nos tecidos urbanos. Ou seja, os dilemas, belezas, dramas, urgências, guerras; as pessoas, os animais, as feras, os fantasmas; as trocas, relações, resistências, amores;

As cidades são catalisadores sociais. Tudo que acontece na vida humana e nas sociedades acontece de forma mais intensa, mais veloz e mais radical nas cidades, justamente porque é nas cidades onde as pessoas estão mais próximas.

A maior parte das pautas que vocês já criam e das que vocês vão criar acontecem em cidades. Daí a necessidade de entender o máximo possível essa realidade – suas causas de possibilidade, as disputas que acontecem em seus limites e seus personagens.

Nesse contexto, as cidades brasileiras são terrenos de fortes disputas, que, como já escrevi acima, expressam elementos da colonialidade e, portanto, de desigualdade.

Um conhecimento sofisticado, por parte de jornalistas, precisa considerar isso. O que implica em não criminalizar as partes da sociedade que reivindicam direitos sociais de moradia, bem estar, segurança e deslocamento – elementos tipicamente negados a boa parte da população brasileira nas cidades.

Uma boa referência para começar a estudar a condição urbana no Brasil é o livro A cidade de pensamento único e em particular o texto ‘As idéias fora de lugar e o lugar fora das ideias’, de Ermínia Maricato, que você pode acessar aqui.

O eixo central do capítulo é a ideia de que as ideias gerais que conduzem o urbanismo brasileiro não são plenamente aplicados a todas as partes das cidades. O que significa dizer que nem toda s sociedade é atendida pelas ideias (positivas) que orientam as cidades de uma maneira geral.

No capitalismo periférico (o capitalismo que nós vivemos) a marca da escravidão também está impressa nas cidades, na forma como há investimentos em determinadas áreas e não há noutras. O mapa da condição de vida e da localização de pretos e pardos é a maior prova científica disso.

As diferenças da foto incluem segurança, transporte, escolas, rede sanitária, energia, acesso à telefonia, entre muitos outros indicadores.

Na lógica que orienta os cursos de arquitetura e urbanismo, bem como nas políticas públicas e nas legislações, todos são iguais. Assim como todas as regiões merecem a mesma atenção do poder público. Mas, na prática, essas ideias não se colam aos lugares. Na prática, são ideias fora do lugar, porque foram trazidas de fora e implementadas de maneira meio imprópria no Brasil.