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A questão urbana

PARIS / DESIGN DAS CIDADES / Um recorte artístico do urbanismo pelo planeta.
Retirado de Instagram.com/sertrading

Se a sociedade brasileira é uma das mais desiguais do mundo, essa condição se espelha na maneira como nossas cidades se estruturam e se apresentam. As marcas da colonização e da colonialidade estão presentes nos tecidos urbanos. Ou seja, os dilemas, belezas, dramas, urgências, guerras; as pessoas, os animais, as feras, os fantasmas; as trocas, relações, resistências, amores;

As cidades são catalisadores sociais. Tudo que acontece na vida humana e nas sociedades acontece de forma mais intensa, mais veloz e mais radical nas cidades, justamente porque é nas cidades onde as pessoas estão mais próximas.

A maior parte das pautas que vocês já criam e das que vocês vão criar acontecem em cidades. Daí a necessidade de entender o máximo possível essa realidade – suas causas de possibilidade, as disputas que acontecem em seus limites e seus personagens.

Nesse contexto, as cidades brasileiras são terrenos de fortes disputas, que, como já escrevi acima, expressam elementos da colonialidade e, portanto, de desigualdade.

Um conhecimento sofisticado, por parte de jornalistas, precisa considerar isso. O que implica em não criminalizar as partes da sociedade que reivindicam direitos sociais de moradia, bem estar, segurança e deslocamento – elementos tipicamente negados a boa parte da população brasileira nas cidades.

Uma boa referência para começar a estudar a condição urbana no Brasil é o livro A cidade de pensamento único e em particular o texto ‘As idéias fora de lugar e o lugar fora das ideias’, de Ermínia Maricato, que você pode acessar aqui.

O eixo central do capítulo é a ideia de que as ideias gerais que conduzem o urbanismo brasileiro não são plenamente aplicados a todas as partes das cidades. O que significa dizer que nem toda s sociedade é atendida pelas ideias (positivas) que orientam as cidades de uma maneira geral.

No capitalismo periférico (o capitalismo que nós vivemos) a marca da escravidão também está impressa nas cidades, na forma como há investimentos em determinadas áreas e não há noutras. O mapa da condição de vida e da localização de pretos e pardos é a maior prova científica disso.

As diferenças da foto incluem segurança, transporte, escolas, rede sanitária, energia, acesso à telefonia, entre muitos outros indicadores.

Na lógica que orienta os cursos de arquitetura e urbanismo, bem como nas políticas públicas e nas legislações, todos são iguais. Assim como todas as regiões merecem a mesma atenção do poder público. Mas, na prática, essas ideias não se colam aos lugares. Na prática, são ideias fora do lugar, porque foram trazidas de fora e implementadas de maneira meio imprópria no Brasil.