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A estatueta dourada é a materialização de um homem branco

Por Luma Lima, estudante de jornalismo e pesquisadora de PIBIC sobre Produção, Circulação E Recepção do Audiovisual Contemporâneo.

Somente 18 estatuetas foram entregues a mulheres negras em 93 anos da premiação

O Oscar é a principal e mais antiga premiação de cinema existente no mundo. E durante os últimos anos vem recebendo diversas críticas quanto à representatividade, visto que seu histórico de indicações e premiações demonstra pouca abertura à diversidade social. Desse modo, reforça que o homem branco continue predominando o cinema enquanto outros grupos étnicos e mulheres são condenados às sombras.

Até 2012, dados levantados sobre a Academia apontavam que 94% dos membros eram brancos, 77% eram homens e 50% tinham mais de 60 anos de idade. Após a polêmica campanha #OscarsSoWhite (#OscarsTãoBrancos, em inglês), que criticava a predominância de brancos na Academia em 2016, houve uma mísera mudança que gerou uma nova admissão de membros na Academia, onde 39% desses novos integrantes eram mulheres e 30% negros.

Porém, como imaginado, esta pequena mudança não surtiu efeito. Um exemplo disso foi o Oscar do ano passado, que foi criticado pela ausência de representatividade nas indicações desde o seu anúncio. Isso porque, apesar da vitória poderosa e surpreendente do sul-coreano Parasita, havia uma aposta certa para aquela noite, nenhuma mulher venceria na categoria de melhor direção e nenhum homem que não fosse branco seria consagrado com a estatueta de melhor atuação (como protagonista ou coadjuvante). De fato, isso é característico da indústria hollywoodiana, a qual tem dificuldade em aceitar tudo aquilo que não se encaixa em seu estereótipo padronizado — no caso, o de um homem branco.

Falar sobre mulheres no cinema é muitas vezes entrar em território inexplorado, afinal, em uma indústria extremamente dominada por homens pensar nas mulheres levanta uma série de questionamentos. Segundo um estudo coordenado por profissionais do site especializado IMDb e do American Film Institute Archive, a representação feminina em Hollywood é assustadoramente escassa. A pesquisa analisou mais de 26 mil filmes de todos os gêneros cinematográficos e calculou o número de mulheres envolvidas nas produções (em todas as áreas dos bastidores). Como resultado, os estudiosos ratificaram que a presença feminina no cinema sempre foi medíocre.

No início do cinema era muito comum ter mulheres nos cargos de edição dos filmes, já que este era um trabalho manual, e acreditavam que mulheres o fariam com mais facilidade. E até os dias atuais, a Direção de Fotografia é uma das áreas mais desiguais do cinema enquanto a Direção de Arte é a área com mais mulheres empregadas, já que inclui maquiagem/figurino/habilidades manuais, que por um estigma de gênero faz com que as produtoras sejam mais receptivas a empregar mulheres.

Visto que a indústria cinematográfica é massivamente comandada por homens, as oportunidades para as mulheres se tornam escassas e ultrajantes. E levando em consideração que a premiação é um reflexo da indústria é impossível negar que a Academia do Oscar seleciona predominantemente candidatos masculinos e marginaliza mulheres nas categorias mais importantes. Apenas em 2010, após 82 anos da premiação, pela primeira e única vez uma mulher ganhou o Oscar de Melhor Direção. E até hoje, apenas sete mulheres no total competiram nesta categoria, o que afeta diretamente a capacidade de mulheres de contarem suas histórias e crescerem na indústria.

Considerando que o Oscar é marcado não só pela misoginia, mas também pelo racismo, não gera surpresas a constatação de que ao longo de todos esses anos poucos foram os negros premiados pela Academia. A primeira pessoa negra a conseguir a estatueta dourada foi a atriz Hattie McDaniel que venceu na categoria de Atriz Coadjuvante por sua atuação em “E o vento levou” no ano de 1939.  Depois deste feito histórico, apenas em 1964 outro ator negro alcançou o prêmio.

Parece piada afirmar que em 93 longos anos de premiação a estatueta foi entregue a apenas oito atrizes negras.  Tal qual é vergonhoso e ofensivo analisar os dados e ver que de todas as 336 estatuetas de atuação já concedidas, 19 foram para negros, cinco para latinos, três para amarelos, enquanto árabes e indígenas venceram apenas uma única vez.

No último dia 15, a atriz Viola Davis recebeu sua quarta indicação à estatueta dourada e, com isso, entrou para a história do cinema ao se tornar a atriz negra mais indicada ao Oscar. Fora isso, Viola quebrou a própria marca em “Melhor Atriz” e se tornou a única mulher negra com duas indicações na categoria. Esses recordes trazem à tona reflexões sobre o humilhante número de atrizes indicadas e vencedoras. Uma explícita manifestação de racismo!

Sim! É quase como querer viver em um conto de fadas esperar que o Oscar seja justo e celebre o cinema em todas as suas formas. Afinal, a premiação é um modelo de showbusiness, glamour, convencionalismo e padronização. O racismo e o machismo são estruturais, assim como na sociedade como um todo. E o fato de pela primeira vez em quase 100 anos duas mulheres estarem concorrendo ao prêmio de Melhor Direção, sendo uma delas não branca, não muda nada nisso.

O Oscar 2020 bateu um novo recorde de audiência negativa, registrando uma queda de 20,6% e um público total de 23.6 milhões de espectadores e, meses depois, houve um anúncio de mudanças na Academia para incluir mais diversidade às listas de indicados. Foram necessários 93 anos e algumas grandes polêmicas para que o principal prêmio da sétima arte desse maior visibilidade a produções e profissionais que refletem a diversidade do público. Então, será que as mudanças são genuínas ou pela queda de audiência o Oscar está desesperado tentando surfar na onda das questões sociais?

Meritocracia, economicismo, liberalismo, sub-desenvolvimento…

As palavras do título desse post, e outras mais, estão no centro do trabalho do sociólogo Jessé de Souza. Nós começamos agora a nos aproximar do estudo desses conceitos, que permitem um olhar sobre características marcantes da sociedade brasileira.

A maneira pela qual nós voltamos nossa atenção é pela leitura do livro A ralé – quem é e como vive, que Jessé publicou em 2009. Um livro que já tem 10 anos mas que nos ajuda a compreender de forma bem clara o Brasil atual.

Na Introdução, Jessé de Souza indica que a forma de pensar alguns dos problemas brasileiros precisa ser revista. Ele escreve:

A impressão mais compulsivamente repetida por todos os jornais e por todo debate intelectual e político brasileiro contemporâneo é a de que todos os problemas sociais e políticos brasileiros já são conhecidos e que já foram devidamente “mapeados”. Que não se perceba nenhuma mudança efetiva no cotidiano de dezenas de milhões de brasileiros condenados a um dia a dia humilhante deve-se ao fato de que a desigualdade brasileira vem de “muito tempo” e que não se pode acabar de uma penada com coisa tão antiga.

E afirma que essas duas afirmações são falsas: são duas afirmações que naturalizam a desigualdade social que existe no Brasil. Elas gerariam a impressão, muito disseminada, de que o Brasil não tem jeito, que é assim mesmo…

Na realidade, a “legitimação da desigualdade” no Brasil contemporâneo, que é o que permite a sua reprodução cotidiana indefinidamente, nada tem a ver com esse passado longínquo. Ela é reproduzida cotidianamente por meios “modernos”, especificamente “simbólicos”, muito diferentes do chicote do senhor de escravos ou do poder pessoal do dono de terra e gente, seja esta gente escrava ou livre, gente negra ou branca. Quando não se fala dessas formas “novas” e “modernas” de se legitimar a dominação cotidiana injusta e se apela a uma suposta e vaga continuidade com o passado distante é porque não se sabe do que se está falando, ainda que não se tenha coragem de admitir.

Sociólogo Jessé de Souza

E isso tem diretamente a ver com os jornalista e o jornalismo. Isso porque o jornalismo que se concentra em confundir análise com números (considerar que usar números, estatísticas é suficiente para tratar da realidade) esconde nossos problemas e as disputas que ocorrem em nossa sociedade.

Para Jessé, temos fetiche por números, a sociedade brasileira como um todo tem em seu imaginário um modo de pensamento economicista: interpreta a realidade a partir de dados, de forma quantificável. Essa perspectiva, redutora da realidade, é o que permite esconder nossos reais problemas.

Há outros aspectos dessa Introdução que veremos nos próximos psts e aulas. Por enquanto deixo vocês com a reflexão acima sobre a classe média brasileira e esse link na revista Cult, com uma entrevista com o autor de A Ralé.

Meritocracia falando alto

O economista Paulo Tafner, do Instituto Millenium, causou indignação após dizer, em uma entrevista para a GloboNews, que a reforma da Previdência corrige a “injustiça” de a empregada se aposentar antes da patroa.

“Como eu sempre costumo dizer, as nossas regras são tão injustas que empregada doméstica se aposenta 10 anos antes da patroa e há gente que defende que isso é razoável”, disse ele.

O trecho é da reportagem “Especialista diz na GloboNews que é injusto a empregada se aposentar antes da patroa”, publicado na Fórum. O caso é um exemplo muito útil da categoria de coisas que vemos no estudo dessa disciplina, em particular o conceito de meritocracia.

Na interpretação de Jessé de Souza, a meritocracia é expressão de uma visão limitada e limitante da vida social – o economicismo, que por sua vez é acionado como forma de encobrir as contradições e disputas que existem no tecido social brasileiro.

O argumento do economista, entretanto, acrescenta algo a mais, como se pode ver nesse trechinho:

 

Além de exprimir um preconceito de classe (qual o problema de uma empregada se aposentar antes?), ele distorce a ordem constitucional expressa na Constituição de 1988, ao afirmar que essa possibilidade contraria o princípio de igualdade entre as pessoas. Na verdade, essa distorção expressa o ponto de vista tradicional no Brasil, presente no imaginário político segundo o qual há dois tipos de cidadãos: primeira classe e segunda classe e que cabe aos primeiros a prerrogativa em tudo.