Arquivos da Categoria: Racismo

Apagamento histórico e branqueamento. A gente vê por aqui

Por Mariana Mota, estudante de jornalismo

Sendo uma das principais difusoras de informação e entretenimento, seria esperado a responsabilidade e o cuidado em tratar de certos temas, o que, infelizmente, não acontece na Globo.
Jornalistas negros ou não-brancos da Globo

Líder de audiência no Brasil, a rede Globo atinge um público diário de cerca de 200 milhões de pessoas, grande parte atraído pelas famosas novelas exibidas em sua programação. Sendo uma das principais difusoras de informação e entretenimento, seria esperado a responsabilidade e o cuidado em tratar de certos temas, o que, infelizmente, não acontece.

Não é novidade que a TV brasileira falha terrivelmente em trazer diversidade às telas. Porém, quando nos deparamos com pessoas brancas em papéis que deveriam ser desempenhados por pessoas negras, indígenas ou amarelas, quando há um branqueamento e apagamento histórico, o problema fica ainda mais sério.

Durante a pandemia, a Globo reprisou o título “Novo Mundo”, exibido originalmente em 2017 como uma recontagem da história do reinado no Brasil que beirou o ridículo. E, como é de costume nas telinhas da emissora, o elenco principal foi composto em sua grande maioria, por atores brancos. A novela, além de abordar a família real portuguesa, tinha como um dos núcleos a tribo indígena Tucaré, na qual Piatã, interpretado pelo ator branco Rodrigo Simas, não só fazia parte, como era o principal personagem indígena.

É preocupante que o canal de TV aberta mais assistido do país tenha escolhido invisibilizar e promover um apagamento da história indígena, do nosso povo, a partir de uma abordagem irresponsável e tenha oferecido esse “entretenimento” para milhões de pessoas.

Elenco de Sol Nascente

Tivemos outro caso de branqueamento em 2016, na novela “Sol Nascente”, que trouxe a família Tanaka, de origem japonesa, em que seu patriarca, Kazuo Tanaka, foi interpretado pelo ator, mais uma vez branco, Luís Melo. Apesar do foco na família japonesa, convenientemente, a principal personagem do núcleo era Alice, filha adotiva e branca interpretada pela atriz Giovanna Antonelli.

Protagonizar uma mulher branca e dar o papel de um senhor japonês a um ator branco foram escolhas. Mesmo quando houve a oportunidade de protagonizar pessoas amarelas, mesmo quando houve a chance de quebrar estereótipos, de colocar em evidência a pauta antirracista a favor de descendentes asiáticos, que têm sua luta frequentemente camuflada, o protagonismo de pessoas brancas foi priorizado.

Essa preferência por atores e personagens brancos, na emissora, não acontece sem querer ou por falta de atores de cor, pelo contrário. O Brasil é um país marcado pela miscigenação racial e o que mais temos à disposição são artistas extremamente competentes que acabam sendo marginalizados por não fazerem parte do padrão ocidental que tanto vemos persistindo na mídia.

Sutilmente, a Globo promove o racismo através de suas produções com um discurso hipócrita “antirracista” que sai das bocas de pessoas brancas. A televisão é uma ferramenta poderosa de formação de opinião pública e invisibilizar pautas importantes em um momento em que o país está infestado de desinformação e intolerância é preocupante.

Torna-se extremamente difícil levar a sério uma emissora que ofereceu – e em horário nobre – uma novela passada na Bahia, como foi o caso de “Segundo Sol”, em que todos os personagens principais eram brancos, quando o estado possui a maioria da população autodeclarada negra. Mais uma vez, a Globo teve a chance de protagonizar pessoas negras e decidiu seguir o rumo do branqueamento.

Esse fenômeno é racismo explanado e não prejudica apenas quando falamos de representatividade, mas quando as pessoas responsáveis por essas produções discriminatórias preferem distorcer histórias e promover um apagamento a dar protagonismo a pessoas negras, indígenas e amarelas.

Envelopar essa discriminação racial em forma de entretenimento e informação para grande parte da população brasileira, que enfrenta todos os dias as adversidades do acesso precário à educação, é, no mínimo, imprudente.

Os artistas precisam do Grammy ou será o contrário?

Lara Felix, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Quando criada em 1958, a premiação contava com 23 categorias e atualmente são 83

O Grammy Awards é uma premiação criada pela The Recording Academy que conquistou prestígio e se tornou sonho de qualquer artista na indústria musical. Mas em 2020 surgiram acusações contra a academia feitas por Deborah Dugan, ex-presidente e diretora do Grammy, que deixou seu cargo sob acusação de má conduta. Deborah chegou a citar uma lista extensa de acusações, e de acordo com a revista Variety, Dugan mencionou que membros do conselho “usavam comitês secretos como oportunidade para promover artistas com quem eles tinham relacionamentos”. Mas essa questão do favoritismo de certos artistas por parte do comitê não é surpresa para quem acompanha o evento. Esse ano ficou ainda mais evidente que mesmo tendo um selo de “diversidade”, a postura do Grammy -com sua banca de jurados composta por homens brancos- ainda é baseada no racismo, xenofobia e machismo.

Quando criada em 1958, a premiação contava com 23 categorias e atualmente são 83, o fato foi publicado no Instagram do Nexo Jornal com gráficos em que mostram o perfil dos vencedores desde 1959. É óbvio que na questão de gênero o público masculino foi o que mais levou o prêmio para casa. Se tratando de nacionalidade, o Nexo Jornal organizou por continente e a América do Norte liderou tendo nos EUA 176 vencedores, e na Europa, mas especificamente no Reino Unido foram 45. Em outros países como Irlanda, Canadá e México o número foi abaixo de seis, deixando bem claro que em outros continentes como Oceania, América do Sul, América Central e África, o resultado foi abaixo de dois. Nesses 63 anos de existência apenas 10 artistas negros venceram na categoria principal denominada Álbum do Ano, entre eles estava Stevie Wonder e Michael Jackson.

Casos de racismo são recorrentes no Grammy, tanto que o evento já recebeu várias críticas por causa disso, mas ainda assim a Academia continua criando obstáculos para que produções de artistas negros sejam mais difíceis de receber o devido reconhecimento. Um exemplo disso foi o cantor Frank Ocean, que em 2017 negou se apresentar na premiação em forma de manifesto contra o racismo que já estava visível. A rapper Nicki Minaj relatou em resposta a um fã no Twitter o porquê de nunca ter conquistado o gramofone, que segundo a mesma foi por decisão do produtor do evento, Ken Ehrlich. Não se pode negar que o mínimo de reconhecimento que artistas negros recebem é na categoria R&B, infelizmente nas outras não podemos dizer o mesmo.

O mais recente exemplo de racismo por parte da academia foi na última edição quando o cantor canadense Abel, mais conhecido como The Weeknd, não foi indicado a nenhuma categoria mesmo tendo feito um ótimo trabalho artístico no seu último álbum After Hours, lançado em março de 2020. De acordo com a Variety, o álbum se encaixava em mais de uma categoria: a de Melhor Álbum Pop, R&B e Álbum do Ano. E isso pode ter sido um problema, já que é difícil a nomeação de artistas negros a alguma categoria pop. Mas de qualquer maneira isso não justifica, se o álbum é realmente bom teria que ser levado em conta tudo, como os de qualquer outro artista branco.

Outra questão importante na indústria são os charts, a popularidade de The Weeknd era mais um motivo para ele ter recebido alguma indicação. Com o lançamento do álbum, o artista atingiu uma marca única nas paradas da Billboard, liderando rankings como Billboard 200, Billboard Hot 100, Billboard Artist 100 e outros. De acordo com uma matéria publicada pela Rolling Stones em novembro de 2020, a faixa Blinding Lights estava há 39 semanas no Top 10 do ranking Billboard Hot 100, alcançou o 7º lugar na Billboard Hot 200 em agosto, e também estava seguindo para 25ª semana no 1º lugar no ranking R&B. Todos esses números foram mais do que suficientes para provar a popularidade tanto do artista como do álbum, e é com essas informações que ficou ainda mais evidente o que realmente acontece nos bastidores da The Recording Academy.

Com o racismo agora perceptível na indústria que cerca o Grammy, é hora de entrar em outro ponto que é tão importante quanto, a xenofobia aos não estadunidenses. Nas premiações existem categorias “Latinas” para separar artistas que não nasceram em território norte americano, o Grammy Latino existe, e está aí há 20 anos para confirmar que a indústria musical, e não apenas ela, impõe uma crença separatista. O que começou a ser mais visto nos últimos anos foi a presença de grupos/artistas sul-coreanos conquistando mais ainda o mundo da música. Um dos maiores exemplos deles foi PSY com o sucesso Gangnam Style lá em 2012, e atualmente temos o grupo BTS.

A situação com BTS foi a seguinte, em abril de 2019 o grupo lançou o álbum Map of the Soul: Persona que foi sucesso comercial com apenas sete faixas. O grupo também colocou três discos no topo das paradas em 11 meses, ultrapassando os Beatles. Lançaram no início de 2020 o Map of the Soul: 7 que fez  eles colecionarem mais títulos de 1º lugar, e ainda assim não foi suficiente para ter suas admissões aceitas na premiação. Até eles lançarem Dynamite, em agosto de 2020, uma música completamente em inglês que levou eles a receberem a nomeação com direito a performance. Mas a popularidade da música feita pelos artistas coreanos em uma língua que não é a deles de origem, 100 milhões de visualizações no YouTube em 24 horas e o 1º lugar por semanas nos charts não foi suficiente para a academia dar o prêmio a eles. E como se não bastasse, seguraram a apresentação deles até o final do evento por motivos de audiência, já que o grupo era um dos mais aguardados da noite.

Após esses episódios lamentáveis, fãs se revoltaram mais ainda nas redes sociais e qualquer pessoa com bom senso poderia entender o que houve. Várias matérias de veículos renomados como a Forbes levantou a questão de que BTS precisava do Grammy ou o Grammy que precisava deles? E ainda assim a academia fez o que fez. Com isso concluo de forma geral que os artistas precisam realmente do Grammy ou é o Grammy que precisa dos artistas?

A estatueta dourada é a materialização de um homem branco

Por Luma Lima, estudante de jornalismo e pesquisadora de PIBIC sobre Produção, Circulação E Recepção do Audiovisual Contemporâneo.

Somente 18 estatuetas foram entregues a mulheres negras em 93 anos da premiação

O Oscar é a principal e mais antiga premiação de cinema existente no mundo. E durante os últimos anos vem recebendo diversas críticas quanto à representatividade, visto que seu histórico de indicações e premiações demonstra pouca abertura à diversidade social. Desse modo, reforça que o homem branco continue predominando o cinema enquanto outros grupos étnicos e mulheres são condenados às sombras.

Até 2012, dados levantados sobre a Academia apontavam que 94% dos membros eram brancos, 77% eram homens e 50% tinham mais de 60 anos de idade. Após a polêmica campanha #OscarsSoWhite (#OscarsTãoBrancos, em inglês), que criticava a predominância de brancos na Academia em 2016, houve uma mísera mudança que gerou uma nova admissão de membros na Academia, onde 39% desses novos integrantes eram mulheres e 30% negros.

Porém, como imaginado, esta pequena mudança não surtiu efeito. Um exemplo disso foi o Oscar do ano passado, que foi criticado pela ausência de representatividade nas indicações desde o seu anúncio. Isso porque, apesar da vitória poderosa e surpreendente do sul-coreano Parasita, havia uma aposta certa para aquela noite, nenhuma mulher venceria na categoria de melhor direção e nenhum homem que não fosse branco seria consagrado com a estatueta de melhor atuação (como protagonista ou coadjuvante). De fato, isso é característico da indústria hollywoodiana, a qual tem dificuldade em aceitar tudo aquilo que não se encaixa em seu estereótipo padronizado — no caso, o de um homem branco.

Falar sobre mulheres no cinema é muitas vezes entrar em território inexplorado, afinal, em uma indústria extremamente dominada por homens pensar nas mulheres levanta uma série de questionamentos. Segundo um estudo coordenado por profissionais do site especializado IMDb e do American Film Institute Archive, a representação feminina em Hollywood é assustadoramente escassa. A pesquisa analisou mais de 26 mil filmes de todos os gêneros cinematográficos e calculou o número de mulheres envolvidas nas produções (em todas as áreas dos bastidores). Como resultado, os estudiosos ratificaram que a presença feminina no cinema sempre foi medíocre.

No início do cinema era muito comum ter mulheres nos cargos de edição dos filmes, já que este era um trabalho manual, e acreditavam que mulheres o fariam com mais facilidade. E até os dias atuais, a Direção de Fotografia é uma das áreas mais desiguais do cinema enquanto a Direção de Arte é a área com mais mulheres empregadas, já que inclui maquiagem/figurino/habilidades manuais, que por um estigma de gênero faz com que as produtoras sejam mais receptivas a empregar mulheres.

Visto que a indústria cinematográfica é massivamente comandada por homens, as oportunidades para as mulheres se tornam escassas e ultrajantes. E levando em consideração que a premiação é um reflexo da indústria é impossível negar que a Academia do Oscar seleciona predominantemente candidatos masculinos e marginaliza mulheres nas categorias mais importantes. Apenas em 2010, após 82 anos da premiação, pela primeira e única vez uma mulher ganhou o Oscar de Melhor Direção. E até hoje, apenas sete mulheres no total competiram nesta categoria, o que afeta diretamente a capacidade de mulheres de contarem suas histórias e crescerem na indústria.

Considerando que o Oscar é marcado não só pela misoginia, mas também pelo racismo, não gera surpresas a constatação de que ao longo de todos esses anos poucos foram os negros premiados pela Academia. A primeira pessoa negra a conseguir a estatueta dourada foi a atriz Hattie McDaniel que venceu na categoria de Atriz Coadjuvante por sua atuação em “E o vento levou” no ano de 1939.  Depois deste feito histórico, apenas em 1964 outro ator negro alcançou o prêmio.

Parece piada afirmar que em 93 longos anos de premiação a estatueta foi entregue a apenas oito atrizes negras.  Tal qual é vergonhoso e ofensivo analisar os dados e ver que de todas as 336 estatuetas de atuação já concedidas, 19 foram para negros, cinco para latinos, três para amarelos, enquanto árabes e indígenas venceram apenas uma única vez.

No último dia 15, a atriz Viola Davis recebeu sua quarta indicação à estatueta dourada e, com isso, entrou para a história do cinema ao se tornar a atriz negra mais indicada ao Oscar. Fora isso, Viola quebrou a própria marca em “Melhor Atriz” e se tornou a única mulher negra com duas indicações na categoria. Esses recordes trazem à tona reflexões sobre o humilhante número de atrizes indicadas e vencedoras. Uma explícita manifestação de racismo!

Sim! É quase como querer viver em um conto de fadas esperar que o Oscar seja justo e celebre o cinema em todas as suas formas. Afinal, a premiação é um modelo de showbusiness, glamour, convencionalismo e padronização. O racismo e o machismo são estruturais, assim como na sociedade como um todo. E o fato de pela primeira vez em quase 100 anos duas mulheres estarem concorrendo ao prêmio de Melhor Direção, sendo uma delas não branca, não muda nada nisso.

O Oscar 2020 bateu um novo recorde de audiência negativa, registrando uma queda de 20,6% e um público total de 23.6 milhões de espectadores e, meses depois, houve um anúncio de mudanças na Academia para incluir mais diversidade às listas de indicados. Foram necessários 93 anos e algumas grandes polêmicas para que o principal prêmio da sétima arte desse maior visibilidade a produções e profissionais que refletem a diversidade do público. Então, será que as mudanças são genuínas ou pela queda de audiência o Oscar está desesperado tentando surfar na onda das questões sociais?

Racismo e a política de drogas

O documentário acima é um dos muitos que tratam da relação entre o racismo e as políticas de drogas no Brasil. Como já vimos, o racismo é estruturante das relações sociais e das políticas no nosso país – entre elas, a política de drogas.

Como tal, o caráter dessas políticas segue a lógica policial, armamentista, segregacionista e excludente. O resultado, em termos numéricos, é que mais de 90% da população carcerária é negra e está ou esteve envolvida com as drogas.

Essa política e os condicionantes sociais tornaram o Brasil representante da terceira maior população carcerária do mundo. Para quem quiser acompanhar a evolução dessas estatísticas, a fonte mais confiável é o Infopen.

A adoção do modelo de “guerra às drogas” (um termo adotado pelos Estados Unidos a partir da década de 1970) vem da influência desse país sobre outros países da América Latina.

Como já vimos também, essa realidade implica, mistura, conecta, relaciona diversas dimensões, em particular, as questões raciais, de gênero e de poder aquisitivo. Ou seja, são objeto de políticas policiais de enfrentamento às drogas ilícitas pessoas pobres, via de regra negras e essa situação é tanto pior para as mulheres – mães, companheiras, irmãs, filhas de homens envolvidos com o tráfico.

Deixo abaixo o link do texto que estudamos dia desses sobre essa realidade e que foi publicado pelo Intercept.Br.
https://theintercept.com/2019/01/17/guerra-as-drogas-fracasso/

Projetos de lei tentam censurar danças nas escolas em vários estados do país

No país do samba, do axé, do frevo, do maracatu e de tantas expressões culturais exuberantes, parece incoerente proibir danças nas escolas. No entanto, em pelo menos cinco estados brasileiros projetos de lei (PL) que visam esse tipo de censura estão em tramitação nas Assembleias Legislativas.

As propostas têm objetivos e justificativas iguais. Pretendem proibir danças que “aludam à sexualização” no ambiente escolar e que promoveriam, na avaliação dos seus autores, a “erotização precoce de crianças e adolescentes”.

No dia 28 de agosto, a integrante da bancada evangélica da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), deputada Clarissa Tércio (PSC), apresentou o PL 494/2019. Ela postou vídeos em suas redes sociais para divulgar a iniciativa. Em um deles, gravado ao lado de um pastor, a parlamentar afirma: “uma criança dançando na escola, balançando o bumbum, não é cultura”. Na sequência, mostra uma gravação onde jovens estão dançando o passinho, um tipo de coreografia oriunda das periferias do Recife.

O passinho pernambucano, que é diferente do carioca, tem sido o principal alvo das críticas de Clarissa Tércio. Embora não seja citado diretamente no PL, foi com essa espécie de cruzada contra a coreografia, um estrondoso sucesso entre os jovens, que ela conseguiu espaço na mídia. E isso com o projeto estando apenas no início da tramitação. Inclusive, a OAB do Estado já alertou que o projeto é inconstitucional, ou seja, não deve ser aprovado.

Mesmo assim, a deputada fez escola. Dançado ao som do brega-funk, o passinho pernambucano ainda não chegou a São Paulo. Mas, em 11 de setembro, o deputado paulista Douglas Garcia, do PSL, apresentou um projeto  quase idêntico ao que está em tramitação na Alepe. Declaradamente inspirado na iniciativa da deputada, o texto se diferencia apenas pela supressão de um artigo onde a aplicabilidade da norma para qualquer dança pernambucana fica estabelecida.

Como que em um movimento orquestrado, outras proposições semelhantes apareceram em vários estados. Também do PSL do presidente Jair Bolsonaro, o deputado estadual Capitão Contar apresentou, em 10 de setembro, um PL equivalente no Mato Grosso do Sul. Quase que uma cópia perfeita do projeto de lei de Clarissa, o texto menciona que debates sobre o mesmo tema estão em curso nas Assembleias Legislativas de Pernambuco e do Rio de Janeiro. No Rio, onde se dança passinho ao som do funk, contudo, o projeto apresentado pelo membro da bancada evangélica, Márcio Canella (MDB), não estabelece proibição a danças, apenas medidas educativas de conscientização à erotização infantil.

Não são apenas os textos dos projetos se assemelham, como também seus autores. Todos são integrantes de bancadas evangélicas e/ou ligados à partidos políticos que defendem pautas conservadoras. Também do PSL do presidente Jair Bolsonaro, o deputado Paulo Trabalho é o autor de uma proposta que versa sobre a mesma temática em Goiás, em tramitação desde 2 de setembro.

Do Patriotas, o delegado Wallber Virgolino, levou o mesmo debate para a Assembleia Legislativa da Paraíba, quando apresentou, no dia 6 de setembro, o PL 920/2019, que mira na proibição de “coreografias obscenas” nas escolas. Membro da bancada evangélica da Assembleia Legislativa da Bahia, o pastor Isidório Filho, do Avante, foi além. No dia 4 de setembro, apresentou um projeto de lei que estende a proibição de ‘danças eróticas’ a programas de TV e em qualquer ambiente público.

Pesquisador das relações entre religião e política, o professor Joanildo Burity, da Fundação Joaquim Nabuco e da UFPE, considera que há um avanço de pautas conservadoras de maneira coordenada nacionalmente. Ele acredita que esse fenômeno ganhou força após a eleição de Bolsonaro, mas não necessariamente parte de um comando central. “Na verdade é o contrário. São grupos organizados, presentes no país inteiro, que constituíram representatividade ao longo dos anos nos ambientes de poder”, considerou. Contudo, Burity vê um esforço coordenado do campo evangélico conservador na defesa de pautas morais no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais.

De um lado, o pesquisador avalia que esses movimentos são representativos, considerando o grande contingente de evangélicos na população. Eles trazem  pautas que têm ressonância nas igrejas, sobretudo nas pentecostais, que representam mais de 60% do campo evangélico no país. Por outro lado, os movimentos mais conservadores não representam a totalidade dos evangélicos brasileiros, na análise de Burity, mas “uma visão muito particular de uma fé que tenta ser imposta por uma minoria”. É o tipo de imposição que acontece no caso dos projetos de lei defendidos por bancadas evangélicas para proibir danças. “Não custa lembrar que o Brasil constitucionalmente não reconhece nenhuma religião como representante do Estado”, ressaltou o pesquisador.

É proibido proibir

Psicóloga e mestra em antropologia, Daniela Sales reflete que, quando se trata do público jovem, o proibicionismo quase nunca tem eficácia. Para ela, os projetos que censuram danças tidas como estimuladoras da erotização precoce são dicotômicos. “A indústria de cosméticos também promove a erotização das crianças. Por que não é um alvo?”, questionou.

Ao cercear a liberdade de expressão através da dança nas escolas, a psicóloga acredita que o debate sobre a sexualidade fica negligenciado. “A partir de manifestações como o passinho, pode se iniciar discussões sobre o corpo, os direitos reprodutivos e a objetificação da mulher, por exemplo. Trazer o jovem para uma posição de protagonismo”, avaliou. Ela chamou atenção para o fato de que o discurso muitas vezes adotado pelos parlamentares é o da defesa da família e da moral, “mas uma família heterossexual, branca e de classe média”. “No fundo é um ataque à questões de gênero, raça e classe”, opinou Daniela.

A dinâmica conservadora do momento atual do Brasil aciona pautas que tentam impor o controle sobre o corpo e sobre a moral, sintetizou o pesquisador e professor da UFPE Thiago Soares. Ele ressaltou o fato de que pautas semelhantes estão em voga em outros contextos, dentro e fora das Casas Legislativas. E questionou: “o que é legislar sobre o corpo no Brasil?”

“Somos um país cuja relação com o corpo é particular. A dança evoca uma relação com a alegria. Há uma confusão entre alegria e sexualização. O passinho pernambucano, por exemplo, é uma dança negra, periférica, que vem atrelada com movimentos pélvicos. Numa leitura moralista do passinho, se lê sexualização. Numa leitura ampla e progressista do passinho, se lê alegria”, considerou.

A proibição de danças nas escolas pode comprometer o próprio aprendizado dos jovens, na percepção de Soares. “A escola já é um espaço de vigilância. Pensar em fiscalizar ainda mais o pátio da escola é tirar alegria do ambiente de ensino. Tem que haver prazer no aprendizado, na construção do conhecimento, não pode ser um espaço apenas de regulação. O passinho e outras danças são um sopro de prazer na experiência de educação”.

A Assessoria de Imprensa da deputada Clarissa Tércio foi questionada sobre uma possível ação articulada de parlamentares para proibir danças nas escolas, mas ainda não respondeu. Não conseguimos contato com os demais parlamentares até a publicação desta matéria.

Texto de Mariama Correa na Marco Zero Conteúdo

Desigualdades regionais e naturalização da pobreza

Nas últimas semanas analisamos alguns quadros e gráficos que mostram as diferenças no nível de desenvolvimento entre as regiões brasileiras. O estudo desses gráficos serviu para começarmos a analisar as razões das disparidades regionais. Eu lembrei nas nossas conversas que os gráficos todos tem duas coisas em comum: mostram que o Sudeste é mais industrializado, mais rico, tem mais empresas e estradas rodoviárias, entre outras coisas e, além disso, eles (os gráficos) não explicam nada.

Com isso, se quer dizer que qualquer gráfico ou mapa é um elemento em uma narrativa: é preciso contar a história (as histórias) por trás dos números. Do contrário, cai-se no fetiche dos números a que Jessé de Souza se refere. Ou seja, é preciso entender e ir atrás das causas do que os gráficos e números mostram para poder interpretá-los melhor.

É aí que nos ajudam as ciências sociais – antropologia, sociologia, história, geografia.

Para compreender as razões da desigualdade entre as regiẽos brasileiras nós usamos o livro “A miseraǘel revolução das classes infames”, de Décio de Freitas. O livro trata da Cabanada, a revolução ocorrida no Pará entre 1835 e 1840.

Como outras insurreições populares que ocorreram no mesmo período, a Cabanada foi motivada pelo caminho que a formação da República brasileira estava tomando. Os cabanos (índios, negros, mestiços, todos pobres) estava vendo que o poder ia continuar concentrado nos estados do Sudeste e que o mesmo arranjo de forças iria permanecer: ou seja, a escravidão continuaria como principal forma de organização social e de produção de riquezas.

Os cabanos não queriam um futuro em que o Sudeste concentrava poder político e riqueza. O nosso presente atual.

A compreensão dessas razões históricas ajudam a compreender a realidade sobre a qual vocês vão produzir jornalismo e sobretudo a não naturalizar as desigualdades.

O caso Marielle

Como discuti um pouco em sala, as leituras do curso permite lançar um certo olhar sobre o caso Marielle Franco – que no último dia 12 de Março completou um ano sem que se saiba quem mandou matar a vereadora do PSOL pelo Rio de Janeiro.

Acho importante observar que uma interpretação possível, a partir de nossas leituras pode ser essa: a socióloga representa por si mesma e pelos que votaram nela um sujeito que não tem direito a exercer papéis de poder. Nessa leitura, o exercício do poder instituído (um cargo político como o que tinha) está reservado à elite branca – em particular aos homens dessa elite.

O texto de Marina Basso Lacerda, que já lemos e discutimos, indica que a formação da sociedade brasileira esteve vinculada à formação da hegemonia patrimonialista e que essa reservou às mulheres (brancas, negras, índias e missigenadas) o papel de território de exploração.

Não o de protagonista política.

Nesse sentido, ser uma mulher, negra, originada na favela, lésbica, contraria o papel histórico a que se reservou às mulheres no Brasil.

Essa é uma explicação/ leitura possível a partir da leitura.

Outra leitura, que possui suas verdades, é a do jornalismo praticado nas reportagens de Vera Araújo, Chico Otávio e Arthur Leal (no O Globo) e Allan de Abreu (na Piauí). São, para mim, as duas melhores reportagens sobre o caso até agora.

Elas indicam razões mais imediatas para o assassinato.

O que é mais interessante é que é, sim, possível,  aliar a explicação histórica (baseada em leituras como a que mencionei da Mariana Basso) com a tradição do jornalismo, representado nas duas reportagens mencionadas.

Índios, negros e pobres…

O fim da escravidão no Brasil completa 130 anos em 13 de maio deste ano. Em 1888, a princesa Isabel, filha do imperador do Brasil Pedro 2º, assinou a Lei Áurea, decretando a abolição – sem nenhuma medida de compensação ou apoio aos ex-escravos.

A decisão veio após mais de três séculos de escravidão, que resultaram em 4,9 milhões de africanos traficados para o Brasil, sendo que mais de 600 mil morreram no caminho.

Mas a abolição no Brasil está longe de ter sido uma benevolência da monarquia. Na verdade, foi resultado de diversos fatores, entre eles, o crescimento do movimento abolicionista na década de 1880, cuja força não podia mais ser contida.

Começa assim a reportagem da BBC Brasil (Muito além da princesa Isabel, 6 brasileiros que lutaram pelo fim da Escravidão no Brasil) escrita por Amanda Rossi e Camila Costa sobre os 130 anos da Abolição, em 2018. Achei importante revisitar esse material por causa da vitória da Mangueira no Carnaval do Rio de Janeiro.

Mangueira_2019

Tanto a matéria quanto o tema da escola de samba tratam dos heróis que trabalharam pelo fim da escravidão no Brasil.  Vale a leitura…

Por que estudar a cabanada

Como sabem, uma das leituras programadas é o último capítulo do  livro “A miserável revolução das classes infames”, de Décio Freitas. O historiador, que morreu em 2004, nos mostra nesse texto as razões das classes mais baixas – nomeadamente índios, negros e seus descendentes – amargarem as experiências mais cruéis do subdesenvolvimento e da desigualdade social.

Mas o capítulo é ainda mais rico que isso, mostrando as razões de tantas insubordinações no Século XIX, no contexto do processo de independência brasileiro – que, a julgar pelos caminhos adotados não  mudaria, realmente, a vida da população mais empobrecida.

O documentário abaixo é uma outra contribuição ao tema. A história toda nos mostra alguns elementos da sociabilidade econômica e política brasileira que procuramos apreender e analisar ao longo da disciplina em andamento…

 

Meritocracia falando alto

O economista Paulo Tafner, do Instituto Millenium, causou indignação após dizer, em uma entrevista para a GloboNews, que a reforma da Previdência corrige a “injustiça” de a empregada se aposentar antes da patroa.

“Como eu sempre costumo dizer, as nossas regras são tão injustas que empregada doméstica se aposenta 10 anos antes da patroa e há gente que defende que isso é razoável”, disse ele.

O trecho é da reportagem “Especialista diz na GloboNews que é injusto a empregada se aposentar antes da patroa”, publicado na Fórum. O caso é um exemplo muito útil da categoria de coisas que vemos no estudo dessa disciplina, em particular o conceito de meritocracia.

Na interpretação de Jessé de Souza, a meritocracia é expressão de uma visão limitada e limitante da vida social – o economicismo, que por sua vez é acionado como forma de encobrir as contradições e disputas que existem no tecido social brasileiro.

O argumento do economista, entretanto, acrescenta algo a mais, como se pode ver nesse trechinho:

 

Além de exprimir um preconceito de classe (qual o problema de uma empregada se aposentar antes?), ele distorce a ordem constitucional expressa na Constituição de 1988, ao afirmar que essa possibilidade contraria o princípio de igualdade entre as pessoas. Na verdade, essa distorção expressa o ponto de vista tradicional no Brasil, presente no imaginário político segundo o qual há dois tipos de cidadãos: primeira classe e segunda classe e que cabe aos primeiros a prerrogativa em tudo.

« Entradas mais Antigas