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Apagamento histórico e branqueamento. A gente vê por aqui

Por Mariana Mota, estudante de jornalismo

Sendo uma das principais difusoras de informação e entretenimento, seria esperado a responsabilidade e o cuidado em tratar de certos temas, o que, infelizmente, não acontece na Globo.
Jornalistas negros ou não-brancos da Globo

Líder de audiência no Brasil, a rede Globo atinge um público diário de cerca de 200 milhões de pessoas, grande parte atraído pelas famosas novelas exibidas em sua programação. Sendo uma das principais difusoras de informação e entretenimento, seria esperado a responsabilidade e o cuidado em tratar de certos temas, o que, infelizmente, não acontece.

Não é novidade que a TV brasileira falha terrivelmente em trazer diversidade às telas. Porém, quando nos deparamos com pessoas brancas em papéis que deveriam ser desempenhados por pessoas negras, indígenas ou amarelas, quando há um branqueamento e apagamento histórico, o problema fica ainda mais sério.

Durante a pandemia, a Globo reprisou o título “Novo Mundo”, exibido originalmente em 2017 como uma recontagem da história do reinado no Brasil que beirou o ridículo. E, como é de costume nas telinhas da emissora, o elenco principal foi composto em sua grande maioria, por atores brancos. A novela, além de abordar a família real portuguesa, tinha como um dos núcleos a tribo indígena Tucaré, na qual Piatã, interpretado pelo ator branco Rodrigo Simas, não só fazia parte, como era o principal personagem indígena.

É preocupante que o canal de TV aberta mais assistido do país tenha escolhido invisibilizar e promover um apagamento da história indígena, do nosso povo, a partir de uma abordagem irresponsável e tenha oferecido esse “entretenimento” para milhões de pessoas.

Elenco de Sol Nascente

Tivemos outro caso de branqueamento em 2016, na novela “Sol Nascente”, que trouxe a família Tanaka, de origem japonesa, em que seu patriarca, Kazuo Tanaka, foi interpretado pelo ator, mais uma vez branco, Luís Melo. Apesar do foco na família japonesa, convenientemente, a principal personagem do núcleo era Alice, filha adotiva e branca interpretada pela atriz Giovanna Antonelli.

Protagonizar uma mulher branca e dar o papel de um senhor japonês a um ator branco foram escolhas. Mesmo quando houve a oportunidade de protagonizar pessoas amarelas, mesmo quando houve a chance de quebrar estereótipos, de colocar em evidência a pauta antirracista a favor de descendentes asiáticos, que têm sua luta frequentemente camuflada, o protagonismo de pessoas brancas foi priorizado.

Essa preferência por atores e personagens brancos, na emissora, não acontece sem querer ou por falta de atores de cor, pelo contrário. O Brasil é um país marcado pela miscigenação racial e o que mais temos à disposição são artistas extremamente competentes que acabam sendo marginalizados por não fazerem parte do padrão ocidental que tanto vemos persistindo na mídia.

Sutilmente, a Globo promove o racismo através de suas produções com um discurso hipócrita “antirracista” que sai das bocas de pessoas brancas. A televisão é uma ferramenta poderosa de formação de opinião pública e invisibilizar pautas importantes em um momento em que o país está infestado de desinformação e intolerância é preocupante.

Torna-se extremamente difícil levar a sério uma emissora que ofereceu – e em horário nobre – uma novela passada na Bahia, como foi o caso de “Segundo Sol”, em que todos os personagens principais eram brancos, quando o estado possui a maioria da população autodeclarada negra. Mais uma vez, a Globo teve a chance de protagonizar pessoas negras e decidiu seguir o rumo do branqueamento.

Esse fenômeno é racismo explanado e não prejudica apenas quando falamos de representatividade, mas quando as pessoas responsáveis por essas produções discriminatórias preferem distorcer histórias e promover um apagamento a dar protagonismo a pessoas negras, indígenas e amarelas.

Envelopar essa discriminação racial em forma de entretenimento e informação para grande parte da população brasileira, que enfrenta todos os dias as adversidades do acesso precário à educação, é, no mínimo, imprudente.

Índio não é fantasia de carnaval

Ana Carolina Guerra, estudante do 6º período do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco

Alessandra Negrini

Certa vez me debrucei sobre um tema corriqueiro na sociedade colonialista. Era temporada pré-carnavalesca, e, como já vira antes no Centro do Recife, inúmeros camelôs e lojas de fantasia vendiam artefatos que remetem à cultura dos povos originários. Neste mesmo ano, em 2020, o maior bloco do mundo, o Galo da Madrugada, anunciou pela primeira vez em sua história o desfile de indígenas em carros alegóricos. Indígenas e carnaval são temas ligados através de discussões sobre preconceito, falta de inclusão, respeito e representatividade.

Dias antes da Festa de Momo, o assunto teria chacoalhado as redes sociais levantando o debate sobre o uso indevido dos traços culturais e ferindo diretamente a memória e os costumes das etnias que ainda resistem em solo brasileiro. A atriz Alessandra Negrini divulgou em suas redes sociais uma foto em que estava vestida com um maiô cavado, um cocar e uma pintura corporal do povo Pitaguary. Neste dia, Alessandra desfilou no bloco Acadêmicos do Baixo Augusta ao lado de Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Mesmo com o aval da APIB -que saiu em defesa da atriz por meio de nota- a “representação” não foi aceita por todos, gerando críticas entre ativistas, sociólogos e mulheres indígenas.

Em entrevista para o Universa Uol, Avelin Buniacá, socióloga especialista em gestão de políticas públicas em gênero e raça, mulher indígena da etnia Kambiwá explicou o seu ponto de vista.

“Nossos trajes e tradições são sagrados. Permitir que sejam banalizados é o mesmo que jogar fora a luta antirracista. Existem mulheres que pagam com a própria vida para proteger suas tradições. Que feminismo é esse no qual uma mulher pode se fantasiar de outra, muito mais vulnerável, e tudo bem? Muito melhor seria usar a própria imagem para fortalecer eixos temáticos de proteção às mulheres indígenas”, explicou.


Mais do que a tentativa de urbanização de um povo excluído nos debates públicos, há por trás dessa “fantasia” – se é que assim pode ser chamado- a sexualização dos corpos femininos.

Em conversa no programa “Sexta Black”, do canal GNT,  a rapper e ativista Kaê Guajajara contou uma de suas experiências como indígena durante o carnaval. “As pessoas hoje são guiadas por um racismo estrutural […]. Elas chegam na maior idade e querem se fantasiar. Às vezes eu trabalhava no carnaval vendendo bebida, via umas pessoas com um cocar de verdade e eu ouvia comentários como ‘nossa, a sua fantasia é a mais original'”.

Voltando à história do Brasil, é possível analisar de onde ressignificamos a política assimilacionista nas metrópoles. Corpos femininos e propriedade passaram a estar relacionados através de mais um legado deixado pela coroa portuguesa. É importante lembrar que a contextualização sexual por trás da “fantasia” traz consigo fraturas ancestrais que permeiam uma realidade atual: o estupro de mulheres indígenas.

Um dos seus primeiros incentivos aconteceu através da lei decretada em 4 de abril de 1755, por Dom  José I, rei de Portugal, e assessorado pelo Marquês de Pombal. O regimento consistia em deliberar terras para os lusitanos através do casamento misto. De acordo com a historiadora Vânia Maria Losada Moreira, em sua pesquisa de Pós-Graduação, a expectativa de Pombal era que a absorção dos índios e de seus descendentes na categoria de brancos e portugueses -por meio do casamento misto-, fosse realizada por meio da mestiçagem biológica e cultural.

Katú Mirim, indígena e ativista, afirmou certa vez em seu canal no YouTube que o motivo de ter gravado o vídeo e debatido o tema através da hashtag Índio Não é Fantasia aconteceu após realizar algumas compras na Rua 25 de março, no centro de São Paulo. “As vitrines das lojas estavam lotadas de cocares e aquela cena ficou na minha cabeça. Para mim foi como ver meus ancestrais e a mim mesma sendo pendurados”, relatou. 

“Fantasia, o substantivo feminino. Ficção, criação, algo que não existe. Pessoas, culturas não são fantasias porque elas existem”, Katú explica. Por meio das falas das ativistas aqui relatadas, fica destacada para os leitores deste artigo que a  reflexão e a desconstrução do imaginário branco colonial precisa estar desatrelada à ideia de pertencimento reforçado pela ideia folclórica cultural das etnias.

Quem tem medo dx negrx na TV brasileira?

Caroline Cardilane – estudante de Jornalismo e estagiária em produção de TV.

Nei Lopes Já havia alertado para o problema

Representatividade: uma das palavras mais reproduzidas atualmente. Essa paroxítona circula desde rodas de debate acadêmicos a postagens em redes sociais. Grupos de “minoria” cada vez mais reivindicam seus espaços como atuantes político-sociais. Um desses espaços é a mídia, ainda formada em grade parte por profissionais brancos, cis e hetéros. Esse perfil é provindo de costumes de uma sociedade branca elitizada e heteronormativa que desde o início têm mais recursos de acesso a seus privilégios de atuação em áreas como a da comunicação. 

Contudo, quando falamos de protagonismo negro, os espaços desses grupos na mídia brasileira são um espelho da realidade do país: reduzido e, muitas vezes, utilizados por conveniências. Em entrevista à BBC NEWS, o pesquisador de culturas africanas, Nei Lopes, já havia comentado sobre o problema. Lopes disse que a presença do negro na mídia, mesmo sendo positiva em partes, ainda tem muito mais a ver com consumo do que com a representatividade de fato.  

No Brasil, atualmente, a representatividade é infelizmente mais discutida do que aplicada. Como por exemplo em redações de jornalismo e na teledramaturgia, ambos os núcleos atingem e moldam opiniões de milhares de pessoas. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística) 55,8% da população brasileira é negra. No entanto, esse número decresce para 23% entre os jornalistas, segundo pesquisa do Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). Entre eles, 18% são negros e 5% pardos. Essas porcentagens falam muito sobre as questões histórico-socioculturais do país, nas quais o negro continua a ser invisibilizado e sombreado pelo protagonismo branco. Além disso, a forma com que o jornalismo aborda o racismo ainda é um problema. 

Nos programas policiais, por exemplo, a situação inflama. Os crimes contra jovens negros de periferia viram um espetáculo, diminuindo a atenção do público para o verdadeiro problema: o racismo estrututal por si só e a violência contra corpos negros. Ou quando em uma roda de debate sobre o assunto, apenas profissionais brancos participam e ocupam um lugar de fala que não os pertence. Como no programa ‘Em Pauta’ da Globonews no ano passado, o episódio virou alvo de diversas críticas, e com razão. O problema não é só em relação às redações de jornalismo, mas a mídia como um todo.   

Por exemplo, autores de novelas que escalam atores negros para seus elencos, pouco pensam na maneira como o personagem vai ser representado. O negro faz o papel do motorista, do traficante, da tia “espalhafatosa” e, se interpreta um personagem central, ele provavelmente vai carregar algum esteriótipo consigo – diga-se de passagem, atribuído por brancos durante o  processo histórico. 

Um exemplo dessa falta de protagonismo foi a novela ‘Segundo Sol’ (2018) da Rede Globo, que virou assunto até no jornal inglês The Guardian, quando foi criticado o fato de que em um drama ambientado na Bahia, um estado em que 80% da populaçãode identifica como negro, segundo dados do IBGE, seja interpretado majoritariamente por brancos. A autora e feminista negra Lélia Gonzales já ressaltava: “quem possui o privilégio social automaticamente possui o privilégio epistêmico e, por consequência, inviabiliza outras experiências do conhecimento e deslegitimiza vozes.”

E é aproveitando o ‘hype’ das discussões de representatividade e protagonismo negro que as  empresas e marcas começaram um processo de “inclusão”, em grande parte apenas de forma externa. Nas propagandas e programas da mídia, o negro passou a atuar como o falso protagonista da história, ou seja: “vamos contratar mais pessoas pretas, só não vale contar que a chefia e os altos cargos do contratante são completamente formados por brancos”. Volta-se então ao ponto levantado por Nei Lopes: tem muito mais a ver com consumo do que com a representatividade de fato. Por trás, tudo não passa de uma manipulação produzida para o público na qual a mídia só está disposta a mudar a imagem externa, e o que chega até ele é amplamente planejado e moldado para “agradar” e se encaixar nos debates atuais. 

No entanto, a parte interna, a que realmente faria diferença por compreender fatores sociais hierárquicos, permanece estática e imutável. O papel de destaque continua sendo dos brancos, cisgêneros e héteros. Todavia, as discussões sobre racismo e representatividade parecem estar se ampliando. Hoje em dia, por meio das mídias de  autores, atores e influenciadores, a sociedade tem um acesso mais facilitado às discussões sobre os problemas sociais, representados por quem os vive e sente na pele. A transformação para um futuro mais inclusivo pode ser lenta, assim como todos os processos já construídos historicamente, mas não impossível. Para tal, a solução é sempre a educação: é a partir dela que os processos históricos, culturais e sociais já citados começam a ser questionados, formando opiniões e alavancando a luta por espaços e representatividade de grupos que já possuem voz, mas que poucos as escutam.

Os artistas precisam do Grammy ou será o contrário?

Lara Felix, estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Quando criada em 1958, a premiação contava com 23 categorias e atualmente são 83

O Grammy Awards é uma premiação criada pela The Recording Academy que conquistou prestígio e se tornou sonho de qualquer artista na indústria musical. Mas em 2020 surgiram acusações contra a academia feitas por Deborah Dugan, ex-presidente e diretora do Grammy, que deixou seu cargo sob acusação de má conduta. Deborah chegou a citar uma lista extensa de acusações, e de acordo com a revista Variety, Dugan mencionou que membros do conselho “usavam comitês secretos como oportunidade para promover artistas com quem eles tinham relacionamentos”. Mas essa questão do favoritismo de certos artistas por parte do comitê não é surpresa para quem acompanha o evento. Esse ano ficou ainda mais evidente que mesmo tendo um selo de “diversidade”, a postura do Grammy -com sua banca de jurados composta por homens brancos- ainda é baseada no racismo, xenofobia e machismo.

Quando criada em 1958, a premiação contava com 23 categorias e atualmente são 83, o fato foi publicado no Instagram do Nexo Jornal com gráficos em que mostram o perfil dos vencedores desde 1959. É óbvio que na questão de gênero o público masculino foi o que mais levou o prêmio para casa. Se tratando de nacionalidade, o Nexo Jornal organizou por continente e a América do Norte liderou tendo nos EUA 176 vencedores, e na Europa, mas especificamente no Reino Unido foram 45. Em outros países como Irlanda, Canadá e México o número foi abaixo de seis, deixando bem claro que em outros continentes como Oceania, América do Sul, América Central e África, o resultado foi abaixo de dois. Nesses 63 anos de existência apenas 10 artistas negros venceram na categoria principal denominada Álbum do Ano, entre eles estava Stevie Wonder e Michael Jackson.

Casos de racismo são recorrentes no Grammy, tanto que o evento já recebeu várias críticas por causa disso, mas ainda assim a Academia continua criando obstáculos para que produções de artistas negros sejam mais difíceis de receber o devido reconhecimento. Um exemplo disso foi o cantor Frank Ocean, que em 2017 negou se apresentar na premiação em forma de manifesto contra o racismo que já estava visível. A rapper Nicki Minaj relatou em resposta a um fã no Twitter o porquê de nunca ter conquistado o gramofone, que segundo a mesma foi por decisão do produtor do evento, Ken Ehrlich. Não se pode negar que o mínimo de reconhecimento que artistas negros recebem é na categoria R&B, infelizmente nas outras não podemos dizer o mesmo.

O mais recente exemplo de racismo por parte da academia foi na última edição quando o cantor canadense Abel, mais conhecido como The Weeknd, não foi indicado a nenhuma categoria mesmo tendo feito um ótimo trabalho artístico no seu último álbum After Hours, lançado em março de 2020. De acordo com a Variety, o álbum se encaixava em mais de uma categoria: a de Melhor Álbum Pop, R&B e Álbum do Ano. E isso pode ter sido um problema, já que é difícil a nomeação de artistas negros a alguma categoria pop. Mas de qualquer maneira isso não justifica, se o álbum é realmente bom teria que ser levado em conta tudo, como os de qualquer outro artista branco.

Outra questão importante na indústria são os charts, a popularidade de The Weeknd era mais um motivo para ele ter recebido alguma indicação. Com o lançamento do álbum, o artista atingiu uma marca única nas paradas da Billboard, liderando rankings como Billboard 200, Billboard Hot 100, Billboard Artist 100 e outros. De acordo com uma matéria publicada pela Rolling Stones em novembro de 2020, a faixa Blinding Lights estava há 39 semanas no Top 10 do ranking Billboard Hot 100, alcançou o 7º lugar na Billboard Hot 200 em agosto, e também estava seguindo para 25ª semana no 1º lugar no ranking R&B. Todos esses números foram mais do que suficientes para provar a popularidade tanto do artista como do álbum, e é com essas informações que ficou ainda mais evidente o que realmente acontece nos bastidores da The Recording Academy.

Com o racismo agora perceptível na indústria que cerca o Grammy, é hora de entrar em outro ponto que é tão importante quanto, a xenofobia aos não estadunidenses. Nas premiações existem categorias “Latinas” para separar artistas que não nasceram em território norte americano, o Grammy Latino existe, e está aí há 20 anos para confirmar que a indústria musical, e não apenas ela, impõe uma crença separatista. O que começou a ser mais visto nos últimos anos foi a presença de grupos/artistas sul-coreanos conquistando mais ainda o mundo da música. Um dos maiores exemplos deles foi PSY com o sucesso Gangnam Style lá em 2012, e atualmente temos o grupo BTS.

A situação com BTS foi a seguinte, em abril de 2019 o grupo lançou o álbum Map of the Soul: Persona que foi sucesso comercial com apenas sete faixas. O grupo também colocou três discos no topo das paradas em 11 meses, ultrapassando os Beatles. Lançaram no início de 2020 o Map of the Soul: 7 que fez  eles colecionarem mais títulos de 1º lugar, e ainda assim não foi suficiente para ter suas admissões aceitas na premiação. Até eles lançarem Dynamite, em agosto de 2020, uma música completamente em inglês que levou eles a receberem a nomeação com direito a performance. Mas a popularidade da música feita pelos artistas coreanos em uma língua que não é a deles de origem, 100 milhões de visualizações no YouTube em 24 horas e o 1º lugar por semanas nos charts não foi suficiente para a academia dar o prêmio a eles. E como se não bastasse, seguraram a apresentação deles até o final do evento por motivos de audiência, já que o grupo era um dos mais aguardados da noite.

Após esses episódios lamentáveis, fãs se revoltaram mais ainda nas redes sociais e qualquer pessoa com bom senso poderia entender o que houve. Várias matérias de veículos renomados como a Forbes levantou a questão de que BTS precisava do Grammy ou o Grammy que precisava deles? E ainda assim a academia fez o que fez. Com isso concluo de forma geral que os artistas precisam realmente do Grammy ou é o Grammy que precisa dos artistas?

A estatueta dourada é a materialização de um homem branco

Por Luma Lima, estudante de jornalismo e pesquisadora de PIBIC sobre Produção, Circulação E Recepção do Audiovisual Contemporâneo.

Somente 18 estatuetas foram entregues a mulheres negras em 93 anos da premiação

O Oscar é a principal e mais antiga premiação de cinema existente no mundo. E durante os últimos anos vem recebendo diversas críticas quanto à representatividade, visto que seu histórico de indicações e premiações demonstra pouca abertura à diversidade social. Desse modo, reforça que o homem branco continue predominando o cinema enquanto outros grupos étnicos e mulheres são condenados às sombras.

Até 2012, dados levantados sobre a Academia apontavam que 94% dos membros eram brancos, 77% eram homens e 50% tinham mais de 60 anos de idade. Após a polêmica campanha #OscarsSoWhite (#OscarsTãoBrancos, em inglês), que criticava a predominância de brancos na Academia em 2016, houve uma mísera mudança que gerou uma nova admissão de membros na Academia, onde 39% desses novos integrantes eram mulheres e 30% negros.

Porém, como imaginado, esta pequena mudança não surtiu efeito. Um exemplo disso foi o Oscar do ano passado, que foi criticado pela ausência de representatividade nas indicações desde o seu anúncio. Isso porque, apesar da vitória poderosa e surpreendente do sul-coreano Parasita, havia uma aposta certa para aquela noite, nenhuma mulher venceria na categoria de melhor direção e nenhum homem que não fosse branco seria consagrado com a estatueta de melhor atuação (como protagonista ou coadjuvante). De fato, isso é característico da indústria hollywoodiana, a qual tem dificuldade em aceitar tudo aquilo que não se encaixa em seu estereótipo padronizado — no caso, o de um homem branco.

Falar sobre mulheres no cinema é muitas vezes entrar em território inexplorado, afinal, em uma indústria extremamente dominada por homens pensar nas mulheres levanta uma série de questionamentos. Segundo um estudo coordenado por profissionais do site especializado IMDb e do American Film Institute Archive, a representação feminina em Hollywood é assustadoramente escassa. A pesquisa analisou mais de 26 mil filmes de todos os gêneros cinematográficos e calculou o número de mulheres envolvidas nas produções (em todas as áreas dos bastidores). Como resultado, os estudiosos ratificaram que a presença feminina no cinema sempre foi medíocre.

No início do cinema era muito comum ter mulheres nos cargos de edição dos filmes, já que este era um trabalho manual, e acreditavam que mulheres o fariam com mais facilidade. E até os dias atuais, a Direção de Fotografia é uma das áreas mais desiguais do cinema enquanto a Direção de Arte é a área com mais mulheres empregadas, já que inclui maquiagem/figurino/habilidades manuais, que por um estigma de gênero faz com que as produtoras sejam mais receptivas a empregar mulheres.

Visto que a indústria cinematográfica é massivamente comandada por homens, as oportunidades para as mulheres se tornam escassas e ultrajantes. E levando em consideração que a premiação é um reflexo da indústria é impossível negar que a Academia do Oscar seleciona predominantemente candidatos masculinos e marginaliza mulheres nas categorias mais importantes. Apenas em 2010, após 82 anos da premiação, pela primeira e única vez uma mulher ganhou o Oscar de Melhor Direção. E até hoje, apenas sete mulheres no total competiram nesta categoria, o que afeta diretamente a capacidade de mulheres de contarem suas histórias e crescerem na indústria.

Considerando que o Oscar é marcado não só pela misoginia, mas também pelo racismo, não gera surpresas a constatação de que ao longo de todos esses anos poucos foram os negros premiados pela Academia. A primeira pessoa negra a conseguir a estatueta dourada foi a atriz Hattie McDaniel que venceu na categoria de Atriz Coadjuvante por sua atuação em “E o vento levou” no ano de 1939.  Depois deste feito histórico, apenas em 1964 outro ator negro alcançou o prêmio.

Parece piada afirmar que em 93 longos anos de premiação a estatueta foi entregue a apenas oito atrizes negras.  Tal qual é vergonhoso e ofensivo analisar os dados e ver que de todas as 336 estatuetas de atuação já concedidas, 19 foram para negros, cinco para latinos, três para amarelos, enquanto árabes e indígenas venceram apenas uma única vez.

No último dia 15, a atriz Viola Davis recebeu sua quarta indicação à estatueta dourada e, com isso, entrou para a história do cinema ao se tornar a atriz negra mais indicada ao Oscar. Fora isso, Viola quebrou a própria marca em “Melhor Atriz” e se tornou a única mulher negra com duas indicações na categoria. Esses recordes trazem à tona reflexões sobre o humilhante número de atrizes indicadas e vencedoras. Uma explícita manifestação de racismo!

Sim! É quase como querer viver em um conto de fadas esperar que o Oscar seja justo e celebre o cinema em todas as suas formas. Afinal, a premiação é um modelo de showbusiness, glamour, convencionalismo e padronização. O racismo e o machismo são estruturais, assim como na sociedade como um todo. E o fato de pela primeira vez em quase 100 anos duas mulheres estarem concorrendo ao prêmio de Melhor Direção, sendo uma delas não branca, não muda nada nisso.

O Oscar 2020 bateu um novo recorde de audiência negativa, registrando uma queda de 20,6% e um público total de 23.6 milhões de espectadores e, meses depois, houve um anúncio de mudanças na Academia para incluir mais diversidade às listas de indicados. Foram necessários 93 anos e algumas grandes polêmicas para que o principal prêmio da sétima arte desse maior visibilidade a produções e profissionais que refletem a diversidade do público. Então, será que as mudanças são genuínas ou pela queda de audiência o Oscar está desesperado tentando surfar na onda das questões sociais?

Ler mulheres: um ato político

Maria Clara Monteiro, estudante de Jornalismo e pesquisadora do Pibic: Observatório de Mídia e Direitos Humanos – OBSERVAMÍDIADH-UNICAP: Mapeamento da violação de Direitos Humanos em programas de Rádio e Televisão.

Se perguntassem a você qual foi o seu último livro lido, você lembraria? Melhor, você saberia dizer o nome da última autora que leu? Caso a sua resposta tenha sido não para ambas e, principalmente, para a última questão, você não está só. Infelizmente, esta é uma realidade que nos atinge e que traz duros resquícios do machismo, do patriarcado, da violência contra as mulheres e, até mesmo, da colonização do país.

O Jornal Contábil, que faz parte do portal R7, vinculado ao Grupo Record, publicou, em 2019, uma matéria intitulada “A representatividade feminina na literatura”. Logo no início da leitura, me surpreendi ao ver quem era o autor da matéria. Isso mesmo. Um autor. Um homem. Apesar do tema central ser o apagamento das mulheres, o autor faz justamente isso ao destacar (mais uma vez), no primeiro parágrafo, a figura masculina: “A literatura é um espaço majoritariamente masculino e, obviamente, isso não acontece por que os homens tenham mais capacidade, repertório e melhores histórias para escrever do que as mulheres”.

É perceptível que o texto raso e supérfluo não evidencia as vivências das mulheres, mas, sim, que prioriza, desde sempre, as falas, as atitudes e os comportamentos masculinos. Não há muito tempo, entre os séculos XVIII e XX, as mulheres que desejavam ser escritoras e ter seus livros publicados precisavam se disfarçar e publicar no anonimato, ou adotar um pseudônimo, geralmente masculino, para que a obra obtivesse respeito e consideração. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Mary Shelley, autora de Frankenstein: Ou O Prometeu Moderno (1823). Na época, seu marido, Percy Shelley, escreveu o prefácio e, com isso, a publicação original do livro teve o nome de autoria de Percy. Apenas na segunda edição é que Mary foi reconhecida como a autora da ficção.

Na reportagem “A mulher na literatura” da educadora Tati Andrade para o blog Não me Kahlo, fica evidente que a literatura vem sendo historicamente produzida e consumida por homens brancos, heterossexuais e de classe média. No entanto, grandes nomes de autoras,principalmente brasileiras, começaram a surgir no século XX e marcam a memória de muitos leitores. Clarice Lispector, Cecília Meireles, Carolina de Jesus, Rachel de Queiroz e Cora Coralina são algumas (das muitas) mulheres que integram a literatura canônica brasileira, sobretudo a partir do modernismo, e que trouxeram à tona suas realidades por meio das palavras.

Joanna Walsh

A geração das autoras acima citadas abriu portas e espaços não apenas para a leitura mais extensiva da literatura produzida por mulheres, mas, também, para que novas autoras surgissem. Na matéria “30 escritoras brasileiras contemporâneas para conhecer hoje” do blog Homo Literatus, escrita por Estela Santos, professora e mestra em Letras – Estudos Literários, ela comprova que, quando o assunto é o cenário literário brasileiro, é perceptível que, além de priorizar a leitura dos clássicos, prefere-se, também, a escrita de mulheres brancas. Com isso, diversas autoras passam despercebidas do mercado editorial e das vitrines das livrarias. Na matéria “Conheça os livros mais vendidos no Brasil em 2020” do jornal Estadão é verificado que dos quinze livros citados, apenas quatro são escritos por mulheres e, exclusivamente, uma obra é de autoria de uma mulher negra.

Débora do Nascimento, bibliotecária, periférica e editora da Literatura de Gaveta, escreveu a reportagem “Os desafios às autoras negras e aos autores negros para publicar livros no Brasil”, no ano passado, para a Biblioo. No texto, Débora resgata a discussão da desigualdade social e racial existente na literatura e os impactos na formação educacional das pessoas. “A massa da informação que recebemos de todos os lados diz que temos que continuar lendo o ponto de vista de homens branco-heteronormativo-cis-de-meia-idade e que eles são os melhores por serem os mais vendidos. Temos a ingênua noção de que temos escolha”, expõe a editora.

Com o objetivo de atrair visibilidade e protagonismo para as autoras femininas, a jornalista inglesa Joanna Walsh criou, em 2014, o movimento #ReadWomen, em português #LeiaMulheres. Luisa Ferreira, jornalista e redatora do blog Janelas Abertas publicou a matéria “Por que precisamos ler mais livros escritos por mulheres” em que explica que Joanna decidiu “passar um ano lendo só livros escritos por mulheres, depois de escrever um artigo sobre a falta de representatividade feminina no meio literário. E o que era um projeto pessoal ganhou dimensão política e internacional”.No Brasil, essa repercussão resultou em clubes de leituras para debater as obras escritas por mulheres. Segundo Luisa, “já são 106 cidades, em quatro anos de projeto”.

Assim sendo, diversos sites criaram listas de autoras, destacando suas biografias e seus principais

trabalhos. Estela Santos, citada anteriormente, também é mediadora dessa hashtag e sempre retoma esse projeto em seus escritos, na tentativa de alcançar mais pessoas.

A partir daí, surgiram reportagens, artigos e dissertações que tratam dessa temática e que buscam recuperar a memória das mulheres, promovendo a nitidez de suas histórias, sejam elas ficcionais ou não. Vale destacar a dimensão que é ler histórias que se encontram com a sua e que trazem a sensação reconfortante de reconhecimento. É fundamental iniciar a leitura de autoras, principalmente as que fogem do padrão – também imposto pela sociedade, e preencher as prateleiras com títulos reais, profundos e ferozes.

Agência-laboratório está com vagas abertas

A curso de jornalismo está colocando em funcionamento a Agência-Laboratório de Práticas Inovadoras em Comunicação, a UNILAB!

O projeto vem sendo planejado há mais de um ano e agora está pronto para ser conhecido por todo mundo e estamos abrindo inscrições para xs estudantes que quiserem trabalhar como voluntários.

A UNILAB é uma plataforma de produção de serviços e conteúdos, bem como de pesquisas e aprendizado. A ideia é que nossos estudantes se envolvam na prestação serviços a entidade externas e instâncias internas à universidade, com assessorias de comunicação e imprensa, gestão de redes sociais, construção de sites, projetos de comunicação e produção de conteúdos.

São seis vagas em três categorias:

Foto e Vídeo: duas vagas
Gestão de redes sociais: duas vagas
Redação e web: duas vagas

Leia o edital de seleção (aqui: http://bit.ly/VoluntarioUnilab) e envie seu currículo para unilab@unicap.br até o dia 02 de Setembro. Depois do processo seletivo, xs selecionadxs já serão informados até o dia 16 de Setembro.

Quem descobriu o Brasil

Colaboração de Karlla Nascimento.
A ideia da música apareceu quando discutíamos uma característica da colonização no Brasil. Ela foi tocada por famílias, teve um forte caráter particular. Por um lado, isso estimulou uma visão distorcida da propriedade no Brasil; intensificou a presença de famílias na vida política e bagunçou a relação entre privado e público.

Leiam Mariana Basso. Link na Bibliografia.

Colonização e devastação de corpos e do ambiente

O que importa sublinhar desde logo é que sustento que as formas de exploração da mulher que foram tratadas no capítulo anterior compõem o substrato material, a base concreta da colonização. Não obstante a pluralidade de formas de vida das mulheres, alguns elementos foram muito generalizados, no sentido de a terra e a mulher terem sido vistas de forma análoga, controladas, adestradas e exploradas no limite, no benefício do projeto colonial. Na esteira dos autores citados, pode-se dizer que existia uma oposição gendrada em que a mulher foi associada ao elemento colonizado, à natureza e à América, ao passo que o masculino foi associado ao colonizador, à Europa, a o Estado monárquico. Isso implica em dizer que a colonização foi uma colonização da América e do seu território, e também dos corpos e das vidas das mulheres (a mulher foi mais objeto do que sujeito da colonização),…
O trecho acima foi retirado do texto “Colonialismo, patrimonialismo e patriarcalismo”, o quarto capítulo da dissertação de Mariana Basso e que você pode ler aqui. O texto é importante no nosso percurso por várias razões.

Primeiro, o texto define conceitos importantes para se compreender a política brasileira:

O patrimonialismo é uma forma de dominação baseada no poder pessoal da autoridade sacralizada, é por isso mesmo, personalista.

No centro dessa forma de dominação está o patriarcalismo, que significa poder político do patriarca.

No patrimonialismo a comunidade política é uma expansão da comunidade doméstica. Na nossa história, a figura do patriarca se confunde com a do senhor de terras.

Por este motivo, os conceitos de patrimonialismo, personalismo e patriarcalismo s

ão ligados à nossa herança rural.

Essas características se apresentam de diversas formas: na presença de famílias como protagonistas da política, na presença central de homens no nosso imaginário político, no uso da coisa pública (recursos públicos, equipamentos públicos, cargos, leis, etc) com interesses privados.

Vocês conhecem diversos exemplos disso: não é uma discussão etérea e abstrata. As família Sarney no Maranhão; Collor em Alagoas; Magalhães na Bahia, Campos em Pernambuco, Neves em Minas Gerais, Bolsonaro no Rio de Janeiro, são apenas alguns exemplos recentes disso tudo.

O uso privado de dinheiro público acaba sendo naturalizado nesse processo e leva a casos absurdos, como a construção dum aeroporto com verba pública e terreno da família de Aécio Neves.

Segundo, o raciocínio de Mariana Basso coloca em primeiro plano a mulher e sua condição no processo de colonização e da compreensão do patrimonialismo, do patriarcalismo e do personalismo. Essas características sempre foram estudadas por homens: Sérgio Buarque de Hollanda, Raymundo Faoro, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, entre outros.

Já Mariana observa que

Apesar de diferentes mulheres entrarem no jogo da colonização e da construção de nossas identidades políticas, a terra e a mulher foram  vistas de forma análoga, controladas, adestradas e exploradas no limite, no benefício do projeto colonial.

O “invadir, conquistar, subjugar” é o fundamento da exploração indígena, do latifúndio, da escravidão, e, também, da forma como foram tratadas as mulheres, do papel que lhes foi dado, de objeto da colonização.

Não é por acaso que temos, no Brasil taxas tão altas de feminicídio e de violência às populações LGBTQ: estas últimas representam uma negação da família ideal que a colonização impôs.

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Nessa página, uma série de indicadores oficiais sobre esse tema.
Por fim, o texto ajuda a entender (ou a lembrar) como a concentração da propriedade fundiária e do regime de trabalho escravo; o esforço particular do processo colonizador e a violência foram fundamentais para o processo colonizador.
Toda essa estrutura é atual e se manifesta de diversas maneiras. As queimadas na Amazônia, que acontecem há mais de três semanas já, são expressão imediata do estímulo do presidente Jair Bolsonaro, mas também de um imaginário construído a partir dos elementos trabalhados pela autora no capítulo.
Acho que nem precisa dizer como a leitura do texto e a reflexão dessas coisas é necessária para uma compreensão mais ampla de nossa realidade atual.
A ilustração desse post é de Rafael Reis.