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Índio não é fantasia de carnaval

Ana Carolina Guerra, estudante do 6º período do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco

Alessandra Negrini

Certa vez me debrucei sobre um tema corriqueiro na sociedade colonialista. Era temporada pré-carnavalesca, e, como já vira antes no Centro do Recife, inúmeros camelôs e lojas de fantasia vendiam artefatos que remetem à cultura dos povos originários. Neste mesmo ano, em 2020, o maior bloco do mundo, o Galo da Madrugada, anunciou pela primeira vez em sua história o desfile de indígenas em carros alegóricos. Indígenas e carnaval são temas ligados através de discussões sobre preconceito, falta de inclusão, respeito e representatividade.

Dias antes da Festa de Momo, o assunto teria chacoalhado as redes sociais levantando o debate sobre o uso indevido dos traços culturais e ferindo diretamente a memória e os costumes das etnias que ainda resistem em solo brasileiro. A atriz Alessandra Negrini divulgou em suas redes sociais uma foto em que estava vestida com um maiô cavado, um cocar e uma pintura corporal do povo Pitaguary. Neste dia, Alessandra desfilou no bloco Acadêmicos do Baixo Augusta ao lado de Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Mesmo com o aval da APIB -que saiu em defesa da atriz por meio de nota- a “representação” não foi aceita por todos, gerando críticas entre ativistas, sociólogos e mulheres indígenas.

Em entrevista para o Universa Uol, Avelin Buniacá, socióloga especialista em gestão de políticas públicas em gênero e raça, mulher indígena da etnia Kambiwá explicou o seu ponto de vista.

“Nossos trajes e tradições são sagrados. Permitir que sejam banalizados é o mesmo que jogar fora a luta antirracista. Existem mulheres que pagam com a própria vida para proteger suas tradições. Que feminismo é esse no qual uma mulher pode se fantasiar de outra, muito mais vulnerável, e tudo bem? Muito melhor seria usar a própria imagem para fortalecer eixos temáticos de proteção às mulheres indígenas”, explicou.


Mais do que a tentativa de urbanização de um povo excluído nos debates públicos, há por trás dessa “fantasia” – se é que assim pode ser chamado- a sexualização dos corpos femininos.

Em conversa no programa “Sexta Black”, do canal GNT,  a rapper e ativista Kaê Guajajara contou uma de suas experiências como indígena durante o carnaval. “As pessoas hoje são guiadas por um racismo estrutural […]. Elas chegam na maior idade e querem se fantasiar. Às vezes eu trabalhava no carnaval vendendo bebida, via umas pessoas com um cocar de verdade e eu ouvia comentários como ‘nossa, a sua fantasia é a mais original'”.

Voltando à história do Brasil, é possível analisar de onde ressignificamos a política assimilacionista nas metrópoles. Corpos femininos e propriedade passaram a estar relacionados através de mais um legado deixado pela coroa portuguesa. É importante lembrar que a contextualização sexual por trás da “fantasia” traz consigo fraturas ancestrais que permeiam uma realidade atual: o estupro de mulheres indígenas.

Um dos seus primeiros incentivos aconteceu através da lei decretada em 4 de abril de 1755, por Dom  José I, rei de Portugal, e assessorado pelo Marquês de Pombal. O regimento consistia em deliberar terras para os lusitanos através do casamento misto. De acordo com a historiadora Vânia Maria Losada Moreira, em sua pesquisa de Pós-Graduação, a expectativa de Pombal era que a absorção dos índios e de seus descendentes na categoria de brancos e portugueses -por meio do casamento misto-, fosse realizada por meio da mestiçagem biológica e cultural.

Katú Mirim, indígena e ativista, afirmou certa vez em seu canal no YouTube que o motivo de ter gravado o vídeo e debatido o tema através da hashtag Índio Não é Fantasia aconteceu após realizar algumas compras na Rua 25 de março, no centro de São Paulo. “As vitrines das lojas estavam lotadas de cocares e aquela cena ficou na minha cabeça. Para mim foi como ver meus ancestrais e a mim mesma sendo pendurados”, relatou. 

“Fantasia, o substantivo feminino. Ficção, criação, algo que não existe. Pessoas, culturas não são fantasias porque elas existem”, Katú explica. Por meio das falas das ativistas aqui relatadas, fica destacada para os leitores deste artigo que a  reflexão e a desconstrução do imaginário branco colonial precisa estar desatrelada à ideia de pertencimento reforçado pela ideia folclórica cultural das etnias.

Ler mulheres: um ato político

Maria Clara Monteiro, estudante de Jornalismo e pesquisadora do Pibic: Observatório de Mídia e Direitos Humanos – OBSERVAMÍDIADH-UNICAP: Mapeamento da violação de Direitos Humanos em programas de Rádio e Televisão.

Se perguntassem a você qual foi o seu último livro lido, você lembraria? Melhor, você saberia dizer o nome da última autora que leu? Caso a sua resposta tenha sido não para ambas e, principalmente, para a última questão, você não está só. Infelizmente, esta é uma realidade que nos atinge e que traz duros resquícios do machismo, do patriarcado, da violência contra as mulheres e, até mesmo, da colonização do país.

O Jornal Contábil, que faz parte do portal R7, vinculado ao Grupo Record, publicou, em 2019, uma matéria intitulada “A representatividade feminina na literatura”. Logo no início da leitura, me surpreendi ao ver quem era o autor da matéria. Isso mesmo. Um autor. Um homem. Apesar do tema central ser o apagamento das mulheres, o autor faz justamente isso ao destacar (mais uma vez), no primeiro parágrafo, a figura masculina: “A literatura é um espaço majoritariamente masculino e, obviamente, isso não acontece por que os homens tenham mais capacidade, repertório e melhores histórias para escrever do que as mulheres”.

É perceptível que o texto raso e supérfluo não evidencia as vivências das mulheres, mas, sim, que prioriza, desde sempre, as falas, as atitudes e os comportamentos masculinos. Não há muito tempo, entre os séculos XVIII e XX, as mulheres que desejavam ser escritoras e ter seus livros publicados precisavam se disfarçar e publicar no anonimato, ou adotar um pseudônimo, geralmente masculino, para que a obra obtivesse respeito e consideração. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Mary Shelley, autora de Frankenstein: Ou O Prometeu Moderno (1823). Na época, seu marido, Percy Shelley, escreveu o prefácio e, com isso, a publicação original do livro teve o nome de autoria de Percy. Apenas na segunda edição é que Mary foi reconhecida como a autora da ficção.

Na reportagem “A mulher na literatura” da educadora Tati Andrade para o blog Não me Kahlo, fica evidente que a literatura vem sendo historicamente produzida e consumida por homens brancos, heterossexuais e de classe média. No entanto, grandes nomes de autoras,principalmente brasileiras, começaram a surgir no século XX e marcam a memória de muitos leitores. Clarice Lispector, Cecília Meireles, Carolina de Jesus, Rachel de Queiroz e Cora Coralina são algumas (das muitas) mulheres que integram a literatura canônica brasileira, sobretudo a partir do modernismo, e que trouxeram à tona suas realidades por meio das palavras.

Joanna Walsh

A geração das autoras acima citadas abriu portas e espaços não apenas para a leitura mais extensiva da literatura produzida por mulheres, mas, também, para que novas autoras surgissem. Na matéria “30 escritoras brasileiras contemporâneas para conhecer hoje” do blog Homo Literatus, escrita por Estela Santos, professora e mestra em Letras – Estudos Literários, ela comprova que, quando o assunto é o cenário literário brasileiro, é perceptível que, além de priorizar a leitura dos clássicos, prefere-se, também, a escrita de mulheres brancas. Com isso, diversas autoras passam despercebidas do mercado editorial e das vitrines das livrarias. Na matéria “Conheça os livros mais vendidos no Brasil em 2020” do jornal Estadão é verificado que dos quinze livros citados, apenas quatro são escritos por mulheres e, exclusivamente, uma obra é de autoria de uma mulher negra.

Débora do Nascimento, bibliotecária, periférica e editora da Literatura de Gaveta, escreveu a reportagem “Os desafios às autoras negras e aos autores negros para publicar livros no Brasil”, no ano passado, para a Biblioo. No texto, Débora resgata a discussão da desigualdade social e racial existente na literatura e os impactos na formação educacional das pessoas. “A massa da informação que recebemos de todos os lados diz que temos que continuar lendo o ponto de vista de homens branco-heteronormativo-cis-de-meia-idade e que eles são os melhores por serem os mais vendidos. Temos a ingênua noção de que temos escolha”, expõe a editora.

Com o objetivo de atrair visibilidade e protagonismo para as autoras femininas, a jornalista inglesa Joanna Walsh criou, em 2014, o movimento #ReadWomen, em português #LeiaMulheres. Luisa Ferreira, jornalista e redatora do blog Janelas Abertas publicou a matéria “Por que precisamos ler mais livros escritos por mulheres” em que explica que Joanna decidiu “passar um ano lendo só livros escritos por mulheres, depois de escrever um artigo sobre a falta de representatividade feminina no meio literário. E o que era um projeto pessoal ganhou dimensão política e internacional”.No Brasil, essa repercussão resultou em clubes de leituras para debater as obras escritas por mulheres. Segundo Luisa, “já são 106 cidades, em quatro anos de projeto”.

Assim sendo, diversos sites criaram listas de autoras, destacando suas biografias e seus principais

trabalhos. Estela Santos, citada anteriormente, também é mediadora dessa hashtag e sempre retoma esse projeto em seus escritos, na tentativa de alcançar mais pessoas.

A partir daí, surgiram reportagens, artigos e dissertações que tratam dessa temática e que buscam recuperar a memória das mulheres, promovendo a nitidez de suas histórias, sejam elas ficcionais ou não. Vale destacar a dimensão que é ler histórias que se encontram com a sua e que trazem a sensação reconfortante de reconhecimento. É fundamental iniciar a leitura de autoras, principalmente as que fogem do padrão – também imposto pela sociedade, e preencher as prateleiras com títulos reais, profundos e ferozes.